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A mostrar mensagens com a etiqueta Escrita Criativa

Primordial

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  Deslumbramento pelas vozes que ouve e rostos que não contempla. Neste instante o ser encontra-se em formação, o milagre da criação explanado tanto pela ciência como pela teologia, a flutuar na vastidão do liquido amniótico. Aqui é o universo, todas as galáxias, constelações, estrelas, planetas, santuários; nesta bolsa existencial, longe dos paradigmas universais do espaço tempo. Cá subsiste apenas lugar para ele, proteção, carinho, amor… o primeiro dos amores, do qual jamais quererá fugir, a união por um cordão umbilical, a irmanação de duas almas que nesse instante, nessa eternidade em contagem decrescente, são apenas uma. Poderá a magnitude celestial e até mesmo a terrena apelidá-lo de parasita, uma entidade a coabitar com o seu hospedeiro, e em tudo estará essa infinda grandeza errada, pois falta-lhe o conhecimento do que é o amor, a partilha de um momento que se perpetuará para além dos oceanos da memória. Mas ali, o ser já em consciência, detém o conhecimento d...

Espectro

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  Território selvagem, sete e meia da manhã. O sol despertou há pouco, e com ele acordo eu. Os pássaros chilreiam nas árvores, o orvalho brilha nas pétalas coloridas das flores intemporais, percorrendo todo o espetro cromático do arco-íris; cores multiplicadas pelo infinito, absorvidas pelo olhar; pigmentações que me fazem esquecer o monocromático noturno, mas jamais a centelha nos teus olhos, a chama que te alumia a alma.   Esta noite dormi sobre relva, tendo como lençol o próprio universo, deixei-me seduzir por deusas há muito extintas, forniquei na entrada do paraíso e caí no inferno. Inspiro os frescos odores matutinos, uma golfada impregnada das milhentas fragrâncias neste jardim, desde rosas a orquídeas, passando pela transpiração da minha pele, a resina dos pinheiros, e os resquícios do ato carnal com divindades findadas. Toda a imensidão deste plano astral está embebido em magia, consigo quase sentir-lhe o paladar, algodão doce, pétalas de rosas, casca de...

O dia amanheceu sorrindo

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  O dia amanheceu sorrindo.  Calçou as meias de ilusão, caminhou só, caminhou sem pressa…  era preciso.  A noite breve chega…  E com isso o dia rápido parte, leva com ele a candura dos toques raiados do sol, leva as cores e explosões visuais de um mundo onde tudo é natural.  A noite breve chega, a pigmentação artificial dos néones numa cidade esquecida, traz com ela a lua dos poetas e memórias de uma praia nos confins do universo.   Traz o quente da tua pele transpirada encostada na minha.  Não é o que dizem?  A noite pertence aos amantes?  O dia rápido parte, e eu não quero que parta, quero ficar preso ali, como se fosse uma foto, um retrato retratando a imortalidade.  Amo o natural e a forma como os olhos brilham no sol, sob o sol… amo o quente dos seus raios, e amo o quente dos teus raios, amo as cores e os ventos, tempestades de alma, na alma, no eu que nem sei quem sou…  Mas o dia vai morrer, a noite vai ger...

A Queda

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  Involuntário, o movimento foi instintivo, já nem se recordava como ali tinha ido parar, apenas sabia que estava naquele local… desamparado, perdido.  Perscrutou o horizonte a tentar encontrar um ponto que reconhecesse, mas tudo se lhe afigurava igual… rochas salientes, pinheiros pintados a neve e uma imensidade interminável de gelo.  A bússola há muito que perdera a sua função, girava numa constância infindável, não existia norte nem sul, nem sequer qualquer outro ponto cardeal, tudo o que subsistia encontrava-se nos limites do seu olhar, o frio e branco toque da morte.  Delineou um projeto, a sua mente traçou todos os detalhes, sobreviver a qualquer custo… mas o corpo estava esgotado, tombou na suavidade cândida do mundo onde se encontrava.  Deitado de costas, a contemplar os flocos que caiam infinitamente, desenhou o seu ultimo anjo, verteu a derradeira lágrima que congelou na sua face e escutou o universo.  Ao longe, nove lobos uivaram ...

Num Sopro

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  Nascemos, crescemos e morremos, a vida foi um sopro, a vida é um sopro, isso é o que dizem. Fomos soprados por Deuses, e o Deus é o meu pai, a Deusa a minha mãe, a entidade acima deles chama-se Gaia, a abelha-mestra de todos nós, que é isso que somos, abelhas pertencentes a uma colmeia, sendo que esta é universal. Por vezes, demasiadas até, agora que penso… parece que fomos atirados no abismo, que a vida é uma queda sem fim, sabes? Como aqueles pesadelos que tínhamos em criança, nunca chegávamos ao chão… Eu? Eu fui criando galhos nesse precipício, aprendi a controlar sonhos, fui obrigado por uma razão que poderei um dia vos contar, segurava-me nesses ramos, abrandava o tombo, sentava-me neles a contemplar o vazio… Outras estamos em sofrimento, agonia que parece não ter fim, sabes? Tudo veio para nos infernizar, todos para nos magoarem, somos uma pequenina peça sem importância, uma zircónica em vez de um diamante, aqui é fácil esquecermo-nos do nosso valor… mas garan...

Despindo divindades!

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  É o despir, despir e tornar a despir, é remover a roupa e o pelo, a pele e a gordura, os músculos e cartilagens, remover os ossos, o tutano a alma, é dizimar ao pó o que nunca antes foi pó, e nesse pó tornar a remover até nem uma memória restar.

Colisão!

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  — Boi dum caralho. — este grito ribombou e ressoou por cima da infernalidade de sons na autoestrada. — Viste a merda que fizeste? Joel ainda estava atordoado, quase nem sabia onde se encontrava, tentou abrir os olhos, apenas conseguiu o direito. As costelas do lado esquerdo doíam-lhe, sentia sangue a escorrer do nariz, enquanto  as suas papilas gustativas eram inundadas pelo sabor férreo característico do mesmo. Deslocou lentamente a cabeça para se conseguir ver no retrovisor, tentar analisar os estragos. Todo o movimento foi acompanhado por pontadas de dor nas costelas. Isto estava mau, ele sabia. O espelho não estava lá, nem o vidro da frente, apenas estilhaços, fragmentos e sangue. Subitamente pancadas na porta. — Estou a falar contigo idiota. — Joel sabia que estas palavras eram vociferadas, apesar de mal as ouvir. Provavelmente tinha danos nos ouvidos também, esperava que não permanentes. — Onde tinhas a cabeça? Esforçou-se para ver quem berrava com ele, ign...

Quatro estações

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  Inverno De novo Bóreas saiu da sua caverna, trouxe com ele o Inverno. Refugio-me numa cabana perdida algures na floresta da memória, sento-me junto à janela, ouvindo a madeira a crepitar enquanto é consumida pelas chamas, e apercebo-me da carência de sons, a ausência dos pássaros, das cigarras. A morte foi anunciada pelas geadas, guiada pelo sopro do norte. Fecho os olhos, escuto os rugidos bravios do vento a passar no arvoredo, como um semideus em fúria, tombam as árvores e com elas um pedaço da minha alma. Oiço a chuva a desabar dos céus ao som dos trovões… adormeço.     Primavera E eis que Zéfiro surgiu então, vindo de oeste, é altura de renascimento, é o tempo de primavera. Aqui as flores germinam, trasbordando sensualidade nos seus perfumes, os odores da floresta mutaram-se, cheira a musgo e a vida, os rios descongelaram libertando deles os aromas aprisionados pelo inverno. A vida selvagem ressurgiu da sua hibernação, sinto as fragrâncias de pelos e pen...

O resto do que fui

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  Com passos lentos e um cigarro entre os dedos percorro esta selva de cimento, contemplo o vácuo preenchido por almas penadas, simples espíritos sem função ou destino, que deambulam por estes mesmos trilhos em busca do que há muito perderam… talvez em busca de si mesmos. Através de um olhar melancólico entrevejo as sombras pintadas a néon, os vermelhos verdes e azuis a tentarem sonegar a cinza deste cinzeiro a que chamam cidade… embelezar esta puta escarlate que nos suga o ânimo até ao tutano. Encolho os ombros, sou uma alma por domesticar, uma presença impercetível, apenas mais um numero entre tantos. Refugio-me na solitude… e tento acreditar que tudo está bem nesta passerelle de vaidades. Puxo o capuz do casaco, protejo-me da chuva, do frio, mas não da sagacidade desta cidade… sinto teu odor nauseabundo, podridão da humanidade, esgoto a céu aberto para os deuses contemplarem a merda que fizeram… e ao olhar para mim, vejo que tudo o que sobrou foi o vazio e uma rosa....

A Noite!

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  A noite tem a cor que eu gosto, tem fantasmas do meu tamanho. Tem medos que adormecem e me deixam dormir também… Tem silêncio, e melodia nas entrelinhas, sonhos ocultos entre mantas e cobertas, fantasias e pesadelos, tem tudo, tudo o que me cria e tudo o que não consigo obter durante o dia. Tem paladares cítricos e olhos fechados, ressonares e batalhas entre lençóis, tem o sexo e a abstenção. Lágrimas solitárias e olhares presos na escuridão, suores de paixão ou simples calafrios de frio, línguas que se entrecruzam e entrechocam, pessoas que degustam a pele umas das outras, e sorvem todas as gotas de suor… como um dia alguém cantou, “dormir é tão social”. E é nela que desperto, nela que mergulho ou voo, simplesmente nas tonalidades da noite, na sua cintilação própria, ali sou eu, consigo ser eu, consigo ser uno com os meus fantasmas… Nela grito, não em desespero, mas sim em libertação!

Papoila Carmesim

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    Papoila, papoilas, flor, flores, odores e amores. De que cores te tinjo? Salpicados os prados a carmesim, como se de sardas em teu rosto se tratassem, tímidas ao frio e aos tempos invernosos, escondidas na pigmentação, ocultas no gelo. Mal o verão germina, despertam na totalidade do seu esplendor, na sua exuberância, o contraste e beleza destas sardas na seda da tua derme, do teu rosto, no quente do teu corpo, que embalo na melodia deste vento, ao sabor dos tempos… e canto. Cânticos de amor e adoração, trovas à vastidão e infinidade do incomensurável, ao ato de amar e ser amado… ao passado, presente e futuro, sem barreiras nem muros, aqui jaz a minha alma despida do meu corpo, perante ti… papoila carmesim. Se te amar é um vírus, permite-me adoecer na genuinidade dos teus olhos, as persianas desse mundo que só a ti pertence, acolhe-me em tua alma e floresce. Aprecia esta minha ária, segue a voz oculta nas palavras, e as palavras encobertas na voz, tu que foste ...

A Estrada!

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  Estrada… sim, estrada, aquele caminho que foi criado com a simples finalidade de ser percorrido, pés descalços na poeira que te assenta, estrada minha, nesta vida que é um carreiro de terra batida. O mundo sensorial é atravessado, sentes na estrada os odores que passaram, e pressentes os que virão, mil flores e um pé de jasmim, talvez alecrim, quem sabe campos pintados a carmesim. No cosmos assistes à morte explícita da lua, rainha sem trono, todas as estrelas são suas vassalas e o sol um amante ausente. Sempre foi sublime esta morte anunciada e prenunciada perpetuamente, a roda viva em que o que vive morre e o que morre renasce para simplesmente se desvanecer de novo, a perfeição num ciclo temporal. O galo inicia o entoar da sua melodia, canta o encantamento para que no outro lado do ciclo o sol se erga no firmamento, mais um momento de singela pureza, as parcas nuvens incendiadas, todos os tons de laranja, e sabes que um simples novo dia se inicia, com a morte da ...

Caramelo, melão e algodão-doce

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  Guia este meu olfato em teus odores, leva-me para além dos prazeres afrodisíacos do próprio corpo, distante de falsas moralidades e teatralizados pudores. Torna-te o bote salva-vidas num universo nauseabundo onde tudo é desprovido dos cândidos aromas percecionados somente pelo epitélio olfatório. Dança comigo doce estrela do obscurecer, sigo os teus passos embalado em sonhos e perdições, com uma rosa segura na boca e os espinhos cravados nos lábios… filamentos vermelhos que me percorrem a mandibula, um gotejar de sangue e alma… e as almas que dançam, se entrechocam e unem numa só, observadas e testemunhadas pelas estrelas deste desvairo. Inebria a minha mente, deixa a loucura apoderar-se do que somos, pois a seriedade não pertence ao hoje, deixa-a vir amanhã, vir (se) depois… hoje seremos meramente lobos que uivam ao luar! Unidos veremos o cosmos se alinhavar até ao mais infinitesimal detalhe, aplaudiremos e tombaremos nas areias do tempo… No final aproximamos os cor...

A que cheiram flores mortas?

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  21 Horas, Daniela acordou subitamente do sono pesado em que se encontrava, algo a fez acordar, levantou-se meio cambaleante devido ao despertar inesperado, e foi até à janela do quarto, nada conseguiu ver. Lembrou-se repentinamente, a janela da sala, a única que dava para a torre, saiu do quarto, desta feita já em passo firme, o sono tinha terminado, sentiu o coração a palpitar rapidamente, descompassadamente, colocou-se de pé no sofá que dá para a torre, olhou e viu, não pela primeira vez, mas sempre a fascinou, todos os seres estavam nas suas portas, todos excepto um, faltava o único que ela conseguia reconhecer fácil, a visão era imaculada, mágica, como a torre mais alta de um conto de fadas, os seres (as gárgulas), o céu estrelado, hoje viam-se perfeitamente as estrelas no firmamento, era noite de lua nova, o que dava ao momento uma magia ainda maior. O último dos seres finalmente chegou, sentou-se na sua porta habitual, e como habitualmente com as pernas ao lon...

Olhar a dentro

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  Saborear o momento, sabes? Impregnares-te do universo através dos sentidos, o vibrante das tonalidades numa floresta ao fim do dia, a ressonância que o vento concebe ao passar pelas folhagens e o seu toque suave e frio na pele. O odor de um cosmos em perpétua mutação e a cinesia de todos os seres neste plano astral. Mantém os olhos fechados, eleva-te, torna-te a estrela da manhã, ou, se ousares, vai mais além… sê o sol neste mundo, o teu mundo. Conscientiza-te de tudo o que te envolve, no fundo do âmago sabes ser uma pechincha, mesmo que o preço a pagar seja a alma. Agora volta-te para ti, deixa-te transportar pela respiração pausada, o fluir do sangue em constante movimento no corpo… o teu templo. Conhece-te e reconhece-te ao mais ínfimo detalhe, inspira e expira ao ritmar do coração, quebrado ou inteiro ele tem a sua cadência própria. Os pelos erguem-se ao sabor do toque… e abres os olhos. Inalas o odor de pinho a arder na lareira, contemplas a sala e sentes o travo ...

Pó de arroz

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  Vadio! Esse era o nome pelo qual mais o chamavam, um verdadeiro vagabundo, e odiava, no fundo da sua alma e na flor da sua derme abominava  essa denominação. Todos o olhavam através dos seus olhos, um deslumbrante arco-íris ótico que o julgava, censurava e oprimia… que sabiam eles? Nada, apenas presumiam e falhavam, mas o gaudério permanecia na conspurcada perceção daqueles ignóbeis seres. Como ele os execrava. Nem um único lhe deu a mão quando todo o seu mundo desmoronou que nem cartas ao vento, para si sobraram unicamente memórias, dor e mágoa… terá que viver com essa recordação até ao final dos seus dias “tudo é mais belo com um pouco de pó de arroz!”. Não passava um único dia sem na sua mente, aquele local entre os dois ouvidos, ter uma disputa… morrer ou viver… acabava ininterruptamente por escolher a vida, seria ela a sua penitência. E agora encontra-se aqui, num barco prestes a chegar à costa, longe da lixeira que um dia chamou de casa, conseguiu deixar p...

Palavras acusadoras!

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  A intempérie abateu-se sobre a cidade, os lagos congelaram, os sapos calaram-se e os pombos encolheram-se nos beirais. Os céus tornaram-se cinza e a cinza foi depositada no cinzeiro num gesto quase automático, autónomo à mente. Este cigarro estava no fim, a morrer numa chama lenta e tu sabias, era claro como vodka… Olhas para o copo vazio, vazo de sentimentos, desprovido de alma. Baco abandonou a mesa, mas continuas a desejar o seu corpo, o sabor, o calor e acima de tudo a embriaguez. Ergues-te calma e lentamente da esplanada, a centímetros da chuva, e milímetros após o frio, esfregas as mãos roxas e sopras… vês o vapor que sai do teu interior, sempre te fascinou, será este o resto da alma que se te escapa numa nuvem, ou estará ela simplesmente em ebulição na tempérie desta noite? Entras no bar, pedes outra cerveja, estás anestesiado e queres ficar ainda mais, eliminar a mente de vez, nem que seja por um segundo apenas… pelo canto do olho vês tudo, notas os ares, notas...

Os seres da montanha

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  Sentou-se então o homem no topo da sua montanha, contemplando os bosques e rios a seus pés. — Olá velho mundo! Sentou-se então a mulher no topo da sua montanha, contemplando os bosques e rios a seus pés. — Olá velho mundo! Sentou-se então o… não, mais ninguém se sentou, as montanhas estavam preenchidas, separadas pelas matas e riachos, criaturas mágicas, místicas aragens, dentes de leão a flutuar, frutos de paixão intocados e contos de fada por contar. Eram virgens os bosques e refrescantes os rios, era amena a temperatura e apaixonante o toque. — Posso-te amar hoje? — perguntou o homem ao ar na esperança que as palavras fossem levadas pelo vento. E quando as falas chegaram ao topo da montanha onde a mulher meditava, o hoje já tinha passado, e era simplesmente um ontem. — Já me amaste ontem, poderás amar-me amanhã, mas hoje… hoje temos os bosques e rios que nos separam. — Cantou ela à brisa. E no amanhã saltaram do topo da sua montanha para o flume, foram levados na direção...

Maré de Fantasmas

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  Parei, parei no tempo da memória, agarrado a fantasmas do passado. Dediquei-me a eles, cultivei e amei-os a todos num só, criando tempestades de paixão, criando tempestades de vazio… E esse deserto veio até mim, tudo se tornou cinza, tudo se tornou laranja, fogo que ardia num mundo que adornei com uma coroa de espinhos. Cravou-se a chaga no meu peito inspirei uma ultima golfada de ar a saber a ferro, sangue do meu sangue a gorgolejar na incólume garganta. Gritos mudos lançados na infinita vastidão do vazio. Libertei-me nessa chaga em dor, sangue e lágrimas. Deixei-me simplesmente ir… ao sabor da maré destes fantasmas!

Esbolar

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 Acariciou-lhe levemente os poros, talvez numa tentativa de remover as impurezas, ou então, quem sabe, por gostar daquele toque, da textura... Sentou-se, e junto à árvore contemplou-a, absorveu toda a beleza da sua estrutura, a delicadeza na sua cor, o ameno da sua pele! Levou as calejadas mãos ao cinto, e apalpou o cabo de chifre da sua faca, ultima prenda do pai que há muito houvera partido, puxando-a gentilmente para fora, libertando-a das amarras, permitindo-lhe respirar e viver através do aço e chifre. Encostou-lhe o gume, e sem muita pressão sentiu-o trespassar, invadir a zona carnuda. Quase nesse instante sentiu a viscosidade vermelha que dela brotou alastrar-se ao longo dos seus dedos, e o perfume embriagá-lo. A medo levou a mão ao rosto, o bálsamo para junto das suas narinas, e aspirou a doce fragrância, lambendo no mesmo instante a ponta dos seus dedos… como adorava o paladar, quase inigualável neste mundo de falsas retidões e mascaradas aparências. Habilmente...