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Ventos

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  Ao sabor do vento partiram eles, velas cheias, barcos a navegar rumo ao desconhecido, em águas umas vezes calmas agitadas suavemente por ele, outras vezes furiosas, tempestuosas, como se Éolo se tivesse unido a Poseidon num ódio ao homem e o seu barco, aos destemidos desbravadores dos novos mundos. Ao sabor do vento gélido da manhã se arrepiava a tua pele nua, sentindo prazer no ato da caricia refrescante, assim era o vento, assim era a pele. Ao sabor do vento dançavam as árvores nos bosques do esquecimento, nas florestas das memórias, bailavam sem parar, sem morrer nem tombar, contudo, noutras florestas, noutros esquecimentos caíam golpeadas por ele, pela sua raiva, pela sua força. Ao sabor do vento, sim... ao sabor do vento inspiro o ar, porque ele dá-me vida e alento, expiro o ar, inspiro o vento, expiro o vento. Por vezes quente como se o Inferno estivesse junto à minha pele, outras vezes gelado, e aqui, neste outro inferno, as chamas congelaram. Vento, a vida e ...

Vida Anagramada!

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    Foi apenas o iodo anagramado que o levou ao vizinho pódio.  A demência cheia de sonhos e a cabeça de ópio, o fígado repleto de feridas profundas, na forma tentada de tumores, oferendas do seu melhor amigo, o grandioso e omnipresente baco.  Tudo o que precisava no momento era dormir, deixar-se ir, amanhã seria melhor, mas não… não conseguia, queria enfiar o punho bem fundo no monitor, sentir-lhe as entranhas esvaírem-se em sangue, se é que os ecrãs sangram… queria arrancar-lhe o coração e comê-lo de uma vez só, engolir aquela porra sem sequer mastigar.  Desejava que a sua vida não fosse um anagrama, contudo as letras há muito que tinham perdido o sentido, era impossível voltar atrás, e ele sabia-o na perfeição, a sua existência tornou-se num anagrama sem solução. 

Despindo divindades!

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  É o despir, despir e tornar a despir, é remover a roupa e o pelo, a pele e a gordura, os músculos e cartilagens, remover os ossos, o tutano a alma, é dizimar ao pó o que nunca antes foi pó, e nesse pó tornar a remover até nem uma memória restar.

Lua Azul

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 Acordo num sobressalto e levanto-me, estou nu no topo de uma colina. Lá no alto vejo a lua azul… “Azul?” Sob meus pés uma vastidão de areia que se prolonga no sentido oposto do precipício, duas portas a flutuarem no nada, e uma balança com um babuíno no seu topo. Só podia estar a sonhar, sabia isso, a lua não é azul, ou será? Aproximo-me da balança, sinto uma sede imensurável. Do nada uma pluma solidifica-se em pleno ar e plana momentaneamente até pousar num dos pratos da balança. — Bem vindo mortal! — oiço esta voz sobrepor-se ao silêncio desértico em que estava. — Por acaso sabes onde estás? — ontem fiz anos, sabem, ontem fiz anos e apenas senti solidão. Olho em meu redor tentando perscrutar a origem da voz, mas tudo se mantem inalterável… duas portas, uma balança, uma pena e um coração… estaria aqui este coração antes? — Fazes ideia de onde estás? — Indagou de novo a voz, agora com uma ponta de irritação no tom. — Ou sabes porque aqui estás? — ontem fiz anos, sabem, ...

Vida efémera

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  Aqui toda a gente sente que o mundo lhes pertence, sem constatarem que o mundo é uma névoa, uma miragem perdida no espectro celestial. Aqui toda a gente sente que sem elas a roda para, e nem se apercebem que ao partirem todos lhes dirão adeus e serão esquecidas. Ela continua a girar sem parar, e a multidão é meramente um numero prescindível, um grão de areia no deserto… Uma flor numa campa! Aqui toda a gente sente que o sol é eterno, mesmo quando lá fora está a chover como se mil anjos estivessem a mijar. Aqui toda a gente sente sem sentimento, olhos presos em pedras de calçada, calçam um sorriso que lhes foi ensinado, um reflexo perpétuo num espelho e uma falsidade na alma, sim… aqui toda a gente sente, sente a merda errada… porque o sentimento para esta gente morreu! Aqui toda a gente sente a importância de serem importantes para eles mesmos, ignorando a importância das massas, esquecendo o que é amar e ser amado, aqui toda a gente é ego, e ninguém é o aglomerado… ...

Às vezes

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  Às vezes, sabes? Apenas às vezes... Gostava realmente de adormecer e manter-me lá, naquele espaço minúsculo entre o sonho e o despertar... Ser eterno nesse momento e esquecer todos os outros... Às vezes, sabes? Apenas às vezes queria desaparecer numa miragem, e esquecer até mesmo que eu próprio existi. Às vezes, sabes?

Olhar a dentro

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  Saborear o momento, sabes? Impregnares-te do universo através dos sentidos, o vibrante das tonalidades numa floresta ao fim do dia, a ressonância que o vento concebe ao passar pelas folhagens e o seu toque suave e frio na pele. O odor de um cosmos em perpétua mutação e a cinesia de todos os seres neste plano astral. Mantém os olhos fechados, eleva-te, torna-te a estrela da manhã, ou, se ousares, vai mais além… sê o sol neste mundo, o teu mundo. Conscientiza-te de tudo o que te envolve, no fundo do âmago sabes ser uma pechincha, mesmo que o preço a pagar seja a alma. Agora volta-te para ti, deixa-te transportar pela respiração pausada, o fluir do sangue em constante movimento no corpo… o teu templo. Conhece-te e reconhece-te ao mais ínfimo detalhe, inspira e expira ao ritmar do coração, quebrado ou inteiro ele tem a sua cadência própria. Os pelos erguem-se ao sabor do toque… e abres os olhos. Inalas o odor de pinho a arder na lareira, contemplas a sala e sentes o travo ...

Palavras acusadoras!

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  A intempérie abateu-se sobre a cidade, os lagos congelaram, os sapos calaram-se e os pombos encolheram-se nos beirais. Os céus tornaram-se cinza e a cinza foi depositada no cinzeiro num gesto quase automático, autónomo à mente. Este cigarro estava no fim, a morrer numa chama lenta e tu sabias, era claro como vodka… Olhas para o copo vazio, vazo de sentimentos, desprovido de alma. Baco abandonou a mesa, mas continuas a desejar o seu corpo, o sabor, o calor e acima de tudo a embriaguez. Ergues-te calma e lentamente da esplanada, a centímetros da chuva, e milímetros após o frio, esfregas as mãos roxas e sopras… vês o vapor que sai do teu interior, sempre te fascinou, será este o resto da alma que se te escapa numa nuvem, ou estará ela simplesmente em ebulição na tempérie desta noite? Entras no bar, pedes outra cerveja, estás anestesiado e queres ficar ainda mais, eliminar a mente de vez, nem que seja por um segundo apenas… pelo canto do olho vês tudo, notas os ares, notas...

Deixem-me Gritar!

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  Aquele bater de coração, o aceleramento repentino, aquela raiva que aflora, o grito na garganta preso à sociedade que não compactua com gritadores. Aquele fremir nos músculos, a pele que aquece e os olhos que tendem a estar fechados. O mundo é um local estranho, e tento fugir, mas não consigo, estou preso num loop, e o loop sou eu e o erro sou eu.... Só queria gritar! Deixem-me Gritar, só queria mesmo ... Encontrar o meu vazio