Palavras acusadoras!

 

A intempérie abateu-se sobre a cidade, os lagos congelaram, os sapos calaram-se e os pombos encolheram-se nos beirais.
Os céus tornaram-se cinza e a cinza foi depositada no cinzeiro num gesto quase automático, autónomo à mente.
Este cigarro estava no fim, a morrer numa chama lenta e tu sabias, era claro como vodka… Olhas para o copo vazio, vazo de sentimentos, desprovido de alma. Baco abandonou a mesa, mas continuas a desejar o seu corpo, o sabor, o calor e acima de tudo a embriaguez.
Ergues-te calma e lentamente da esplanada, a centímetros da chuva, e milímetros após o frio, esfregas as mãos roxas e sopras… vês o vapor que sai do teu interior, sempre te fascinou, será este o resto da alma que se te escapa numa nuvem, ou estará ela simplesmente em ebulição na tempérie desta noite?
Entras no bar, pedes outra cerveja, estás anestesiado e queres ficar ainda mais, eliminar a mente de vez, nem que seja por um segundo apenas… pelo canto do olho vês tudo, notas os ares, notas as expressões, optas por pagar e ignorar.
Sorris e internamente gargalhas destas palavras acusadoras que ficam no olhar…

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