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Monstro no jardim

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  Escolhe o ritmo, escolhe o ritmo e eu escolho a arma. Escolhe o som, o baque, a queda, eu escolho a dor, a dor… o amor! Escolhe a cor, o tom claro, o tom escuro, os espetros das tonalidades cromáticas. Não importa, não interessa, eu levo o branco, o negro e os universos em colisão, os que se transmutam uns nos outros, não é assim que sou? Não é isso que me torna em mim? Um monstro perdido num jardim? Éden talvez? Ou Minos. Não interessa, deixa a parede incólume, um dia marro lá com os meus próprios cornos.

Chacinando flores

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  Arrancou a flor do chão, rasgando-a do ventre de Gaia, tentando apoderar-se-lhe da beleza e da fragrância.  Sucumbiu, essa mesma flor, pouco depois, solitária numa prisão em formato de jarra, num mundo artificial cheio de arrogâncias e falsidades, longe dos prados que amava, e dos campos floridos da memória perene.  Mais uma filha da mãe terra chacinada por vaidade e inveja, atirada para o esgoto quando dela já nada mais conseguiam extrair.  Gaia gritou em agonia.  — Como ousas tocar no meu jardim?    ****************** Originalmente o texto era só assim:  Arrancou a flor do chão, rasgando-a do ventre de Gaia.  Ela gritou em agonia.  — Como ousas tocar no meu jardim? 

O último beijo

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  Ponta da cama, cinco e meia da manhã. A cidade está a acordar, o deus ofensor proveniente da escuridão dissipa-se pela alvura que teima em penetrar no teu casulo. Bem perto, talvez do outro lado das muralhas ouves os primeiros carros, as vozes e passos, escutas a vida a desabrochar, enquanto contemplas o jogo de sombras no teto, espectros de uma vida que não mais usufruis, uma ilusão onde te sentes seguro. Fechas os olhos e inspiras profundamente o ar húmido com os últimos vestígios da noite, desprovido de caricias, de ternuras, de amor. Ainda tens tempo. Ontem foi um bom dia, sabes? Ontem será sempre um bom dia. Existem searas nos infindos campos dos Deuses, trigais prontos a serem colhidos, chacinados por uma foice assassina… e existe ela. Sentes o odor a perfume, flores de um jardim que não mais subsiste, uma memória residual, um hábito, era frequente este bálsamo, a constância da sua pele… Tens uma musica em repetição na cabeça, dormiste com ela… mas sem ela… “ I...

Meditação

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  Piquenique, a tolha está colocada sobre a relva, sim, nas ervas algures no campo, pois nem tudo terá que ter areia, água salgada, ondas e abismos (o abismo sou eu). Coloco lado a lado a uva colhida e a uva esmagada, fruta e vinho. Alimento para o corpo, bebida para o espirito. A ti brindo, Baco, neste dia, uma nova alvorada. Dou um gole deste cálice adornado a lágrimas, sinto o frutificado sangue de uma qualquer divindade que prefere os homens alcoólatras ao invés de hidratados, envolver as minhas papilas gustativas, aquecer-me o esófago e descer. A temperatura está amena, deixo os raios solares acariciarem a minha pele, afagar-me os pelos, aquecerem o meu eu externo, para que este se sintonize com o interno, sinto o vento roçar a minha existência, dá-me conforto, dá-me alento, por um momento sussurra-me o lamento de um Rei, ou será de um fauno? Cheira a flores silvestres, pinheiros, amoras, ao lago (afinal apesar de não salgada, teria que existir água), existe o arom...

E quando...

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  E quando as palavras terminarem e o sentimento arrefecer?  Quando o ânimo acalmar e deixarmos de viver para apenas sobreviver?  E quando as lágrimas secarem, e as recordações se começarem a dissolver?  Uma, após a outra, seguida por outra… e se já nem tivermos força para renascer?  E quando o amor já não for amor, mas sim uma memória?  E quando o frio se sobrepuser ao calor, e já não consigamos criar mais história?  Toda a vivência, todas as batalhas, seguindo apenas uma trajetória…  Será esta a vitória inglória de uma glória ilusória?  E quando acordares e estiveres sozinho?  E de bebida tiveres apenas o mais azedo vinho?  Sei que não és bruxo, tão pouco adivinho,  Queima o incenso, o azevinho…  E pensa para ti mesmo,  E quando… 

Espectro

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  Território selvagem, sete e meia da manhã. O sol despertou há pouco, e com ele acordo eu. Os pássaros chilreiam nas árvores, o orvalho brilha nas pétalas coloridas das flores intemporais, percorrendo todo o espetro cromático do arco-íris; cores multiplicadas pelo infinito, absorvidas pelo olhar; pigmentações que me fazem esquecer o monocromático noturno, mas jamais a centelha nos teus olhos, a chama que te alumia a alma.   Esta noite dormi sobre relva, tendo como lençol o próprio universo, deixei-me seduzir por deusas há muito extintas, forniquei na entrada do paraíso e caí no inferno. Inspiro os frescos odores matutinos, uma golfada impregnada das milhentas fragrâncias neste jardim, desde rosas a orquídeas, passando pela transpiração da minha pele, a resina dos pinheiros, e os resquícios do ato carnal com divindades findadas. Toda a imensidão deste plano astral está embebido em magia, consigo quase sentir-lhe o paladar, algodão doce, pétalas de rosas, casca de...

O dia amanheceu sorrindo

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  O dia amanheceu sorrindo.  Calçou as meias de ilusão, caminhou só, caminhou sem pressa…  era preciso.  A noite breve chega…  E com isso o dia rápido parte, leva com ele a candura dos toques raiados do sol, leva as cores e explosões visuais de um mundo onde tudo é natural.  A noite breve chega, a pigmentação artificial dos néones numa cidade esquecida, traz com ela a lua dos poetas e memórias de uma praia nos confins do universo.   Traz o quente da tua pele transpirada encostada na minha.  Não é o que dizem?  A noite pertence aos amantes?  O dia rápido parte, e eu não quero que parta, quero ficar preso ali, como se fosse uma foto, um retrato retratando a imortalidade.  Amo o natural e a forma como os olhos brilham no sol, sob o sol… amo o quente dos seus raios, e amo o quente dos teus raios, amo as cores e os ventos, tempestades de alma, na alma, no eu que nem sei quem sou…  Mas o dia vai morrer, a noite vai ger...

Num Sopro

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  Nascemos, crescemos e morremos, a vida foi um sopro, a vida é um sopro, isso é o que dizem. Fomos soprados por Deuses, e o Deus é o meu pai, a Deusa a minha mãe, a entidade acima deles chama-se Gaia, a abelha-mestra de todos nós, que é isso que somos, abelhas pertencentes a uma colmeia, sendo que esta é universal. Por vezes, demasiadas até, agora que penso… parece que fomos atirados no abismo, que a vida é uma queda sem fim, sabes? Como aqueles pesadelos que tínhamos em criança, nunca chegávamos ao chão… Eu? Eu fui criando galhos nesse precipício, aprendi a controlar sonhos, fui obrigado por uma razão que poderei um dia vos contar, segurava-me nesses ramos, abrandava o tombo, sentava-me neles a contemplar o vazio… Outras estamos em sofrimento, agonia que parece não ter fim, sabes? Tudo veio para nos infernizar, todos para nos magoarem, somos uma pequenina peça sem importância, uma zircónica em vez de um diamante, aqui é fácil esquecermo-nos do nosso valor… mas garan...

Vida Anagramada!

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    Foi apenas o iodo anagramado que o levou ao vizinho pódio.  A demência cheia de sonhos e a cabeça de ópio, o fígado repleto de feridas profundas, na forma tentada de tumores, oferendas do seu melhor amigo, o grandioso e omnipresente baco.  Tudo o que precisava no momento era dormir, deixar-se ir, amanhã seria melhor, mas não… não conseguia, queria enfiar o punho bem fundo no monitor, sentir-lhe as entranhas esvaírem-se em sangue, se é que os ecrãs sangram… queria arrancar-lhe o coração e comê-lo de uma vez só, engolir aquela porra sem sequer mastigar.  Desejava que a sua vida não fosse um anagrama, contudo as letras há muito que tinham perdido o sentido, era impossível voltar atrás, e ele sabia-o na perfeição, a sua existência tornou-se num anagrama sem solução. 

Receita em 3 Atos

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  Prefácio Deleitar-me-ei com os teus peitos esta noite. Desde que me levantei a visão da sua delicadeza não me sai da mente, o seu tamanho… ideal, nem demais, nem de menos… são perfeitos, dignos de uma Rainha. Quanto pesarão nas minhas mãos, qual será a sua textura ante meus dedos? Ante minha língua?   Ato 1 Pego na faca e testo o gume na unha, travou nesse embate, está perfeita. Descasco habilmente três dentes de alho que coloco ao lado de umas folhas de louro roubadas da coroa de um qualquer Romano. De relance contemplo os peitos e sorrio, sinto-me salivar em antecipação. Serei eu o cão de Pavlov? Retiro uma mão cheia de sal que coloco imediatamente num recipiente, vendo-o brilhar, quais estrelas luminárias da escuridão, junto-lhe pimenta preta moída e ervas colhidas de uma horta há muito esquecida, uma memória para lá da memória, sei que com elas vieram os cogumelos brancos que estão ali, bem perto, laminados, destruídos e destituídos da sua forma orgânica. Dou um...

Daquele exato encontro

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  🌊 Daquele exato encontro • entre o mar e as rochas, deidades supremas que puxam pela divindade em mim. 🌊 Daquele exato encontro • entre a paixão e o calor, e palavras perdidas nos salpicos de chuva que não cai, mas ai… o mar e as rochas… e os sonhos em mim. 🌊 Daquele exato encontro • em vidas e sonhos, e sonhos e ilusões, miragens perdidas, fizesse sol e poderia pintar-te o arco iris nos olhos 🌊 Daquele exato encontro • entre os meus e os teus lábios, o mar pode bradar, as rochas podem ficar, mas tudo foi parte mística daquele exato encontro Foto do Instagram de Marília Moura

Quatro estações

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  Inverno De novo Bóreas saiu da sua caverna, trouxe com ele o Inverno. Refugio-me numa cabana perdida algures na floresta da memória, sento-me junto à janela, ouvindo a madeira a crepitar enquanto é consumida pelas chamas, e apercebo-me da carência de sons, a ausência dos pássaros, das cigarras. A morte foi anunciada pelas geadas, guiada pelo sopro do norte. Fecho os olhos, escuto os rugidos bravios do vento a passar no arvoredo, como um semideus em fúria, tombam as árvores e com elas um pedaço da minha alma. Oiço a chuva a desabar dos céus ao som dos trovões… adormeço.     Primavera E eis que Zéfiro surgiu então, vindo de oeste, é altura de renascimento, é o tempo de primavera. Aqui as flores germinam, trasbordando sensualidade nos seus perfumes, os odores da floresta mutaram-se, cheira a musgo e a vida, os rios descongelaram libertando deles os aromas aprisionados pelo inverno. A vida selvagem ressurgiu da sua hibernação, sinto as fragrâncias de pelos e pen...

Fantoches dos Deuses

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  Bravo e elegante, descendente de uma linhagem de gigantes, não em tamanho mas em pensamento. Aqui se refugiava, no auge do cosmos, aquele local que desenhou e pintou, multicolorido a partir das suas próprias mágoas, aquecido pelas cicatrizes… o seu universo exclusivo. Este era o sitio onde repousava e refletia, adquiria conhecimento, força, fechava os olhos e modestamente experienciava as poeiras siderais afagarem-lhe a careca, aquele ponto na cabeça que outrora fora povoado por longos cabelos castanhos… Sentado no nada contemplava a beleza da criação e da destruição, estrelas a nascerem e morrerem, galáxias engolidas por buracos negros e novas a surgirem no vazio cósmico, civilizações inteiras que da insignificância subiam as escadas até ao topo do seu apogeu, para aí se despenharem no precipício da decadência. Um jogo amplamente praticado por Deuses ausentes, onde nós, sua criação, não passamos de meras marionetas, espantalhos num milheiral divino em que a única c...

lost in a twilight neverending world

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  I'm lost i'm lost in a twilight neverending world where theres no rainbows, i'm lost in the rain, and this voice keeps going on my tomb. there was a place in my head, unable to be reached, unable even for me, but now i see it perfectly... All your life was pain till now and will go on... Grab it litle star, make it your personal forest... and get the strenght from the pain. If a tear comes out from the window of your soul, litle star, let it shine... and you will shine with her. Let's dance motherfucker. ***************************** Português agora******************************* Estou perdido, Estou perdido no crepúsculo sem fim de um mundo onde não existe arco-íris, estou perdido na chuva, e esta voz continua no meu túmulo. Existia um local na minha cabeça impossível de ser alcançado, incapaz até mesmo por mim, mas hoje eu vejo-o perfeitamente... Até agora toda a tua vida foi dor, e vai continuar… Apanha-a pequena estrela, torna-a a tua floresta pessoal... e obtém...

O resto do que fui

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  Com passos lentos e um cigarro entre os dedos percorro esta selva de cimento, contemplo o vácuo preenchido por almas penadas, simples espíritos sem função ou destino, que deambulam por estes mesmos trilhos em busca do que há muito perderam… talvez em busca de si mesmos. Através de um olhar melancólico entrevejo as sombras pintadas a néon, os vermelhos verdes e azuis a tentarem sonegar a cinza deste cinzeiro a que chamam cidade… embelezar esta puta escarlate que nos suga o ânimo até ao tutano. Encolho os ombros, sou uma alma por domesticar, uma presença impercetível, apenas mais um numero entre tantos. Refugio-me na solitude… e tento acreditar que tudo está bem nesta passerelle de vaidades. Puxo o capuz do casaco, protejo-me da chuva, do frio, mas não da sagacidade desta cidade… sinto teu odor nauseabundo, podridão da humanidade, esgoto a céu aberto para os deuses contemplarem a merda que fizeram… e ao olhar para mim, vejo que tudo o que sobrou foi o vazio e uma rosa....