Espectro
Território selvagem, sete e meia da manhã.
O sol despertou há pouco, e com ele acordo eu.
Os pássaros chilreiam nas árvores, o orvalho brilha nas pétalas coloridas das flores intemporais, percorrendo todo o espetro cromático do arco-íris; cores multiplicadas pelo infinito, absorvidas pelo olhar; pigmentações que me fazem esquecer o monocromático noturno, mas jamais a centelha nos teus olhos, a chama que te alumia a alma.
Esta noite dormi sobre relva, tendo como lençol o próprio universo, deixei-me seduzir por deusas há muito extintas, forniquei na entrada do paraíso e caí no inferno.
Inspiro os frescos odores matutinos, uma golfada impregnada das milhentas fragrâncias neste jardim, desde rosas a orquídeas, passando pela transpiração da minha pele, a resina dos pinheiros, e os resquícios do ato carnal com divindades findadas.
Toda a imensidão deste plano astral está embebido em magia, consigo quase sentir-lhe o paladar, algodão doce, pétalas de rosas, casca de limão… tanto faz, é uma multiplicidade tão desmedida que sinto o corpo entrar em torpor.
Levanto-me e começo a caminhar neste Éden que se apresenta no vislumbre da minha vivência, acelero o passo até correr, até ser ultrapassado pelo meu espirito, o lobo em mim, corro livre, mergulho no lago gelado que me acorda, sei que Érebo virá de novo, até lá sou o lobo diurno que se lava na cascata de um cosmo infindável…
Nu observo o meu rosto no espelho de água, onde contemplo um homem que se perdeu no mapa do mundo.

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