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Para proteger e servir - Filha de ninguém

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  “… feminino, totalmente dilacerado. As autoridades acreditam que tenha sido um ataque de urso, contudo não avançam com mais detalhes. Contínua a busca sobre a identidade da adolescente. A descrição segue acima, tal como um retrato robô de como seria. Se alguém a conhecer entre em contacto com as autoridades locais.” * * * — Jéssica, vamos. Ela estava atónita, os olhos percorriam o corredor; do teto caiam pingos de água gelada, condensação da eternidade notívaga, a noite no inferno por vezes tem essa qualidade, congelar o plano absoluto dos seres vivos. Abrandou na primeira curva, queria manter-se perto do tutor, o seu mestre de anjo, mas não conseguia, as pernas afrouxaram, até que parou por completo. Observou tudo a seu redor, como poderia chover dentro de uma caverna, no coração da mais frágil das crianças? Nas paredes cresciam rosas, mais uma impossibilidade existencial, subiam ao teto e desapareciam pelas paredes, fundindo-se com a rocha, umas brancas como a candura, outras n...

Benjamim

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  Hoje pensei em sair, ir para fora de mim, contemplar o mundo com estes olhos que de avelã nada têm. Peguei-te, toquei-te, cheirei-te e senti o teu aroma invadir todos os poros da minha pele, a derme que já transpirava apenas por um vislumbre teu. Pertenci-te, fui teu, ali sentado num sofá de cabedal falsificado num mundo imaginário, sem sol nem estrelas, nem dores ou alegrias… és o meu mundo, tornaste-te ele, ali, naquele ápice especial, sem necessidade de sinalética. Decidi ficar, ser um benjamim no teu jardim, beijar-te as pétalas como quem vira a página de um livro… e tanto que sei a necessidade de virar as minhas. As palavras sei-as de cor, tal como todos os tons do teu cabelo, o perfume é mágico e inalo-te, és livro e uma história, foste palavras sentidas, e agora, aqui sentado a ler o passado, sinto alegria, sei que foram momentos e eles constroem presentes. Como presente, concedo-te o futuro… viverás perene na minha anamnésia, libertemo-nos da gaiola que nos p...

Cartas de amor são ridiculas

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Monstro no jardim

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  Escolhe o ritmo, escolhe o ritmo e eu escolho a arma. Escolhe o som, o baque, a queda, eu escolho a dor, a dor… o amor! Escolhe a cor, o tom claro, o tom escuro, os espetros das tonalidades cromáticas. Não importa, não interessa, eu levo o branco, o negro e os universos em colisão, os que se transmutam uns nos outros, não é assim que sou? Não é isso que me torna em mim? Um monstro perdido num jardim? Éden talvez? Ou Minos. Não interessa, deixa a parede incólume, um dia marro lá com os meus próprios cornos.

Para proteger e servir - A busca

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  Metal incandescente, pessoas em pânico, morcegos a guinchar nos céus, pó de labaredas, de abandono, desespero, suor, perdição, sirenes, ordens, caos, Deus observa a sua criação a conjeturar o passo seguinte, quieto, imóvel, um adorno no paraíso celestial, uma invenção criada para não temermos a noite… pobres ignorantes! — Que viemos fazer aqui? — indagou Jéssica, estava atónita, com o estômago ainda vulnerável da lembrança do seu primeiro corpo, a observar a correria sem fim de homens e ambulâncias. Samuel olhou-a em silêncio, com os seus olhos castanhos, pequenos, rasgos de realidade, à procura da veracidade na alma da sua pupila, estaria ela preparada? Queria acreditar que sim, que as profundezas negras do olhar dela contivessem a força necessária para aguentar a carga. — Viemos procurar o dono disto — deu duas pancadas suaves no seu casaco, onde se encontrava oculta uma lata de spray, parideira de dragões azuis, monstruosidades deíficas. — Não vamos ter problemas por ignorarm...

Para proteger e servir - No beco da aranha

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  Arco de luz, faúlhas incandescentes à distância; na colina, a antiga fábrica de papel arde, segundos antes desta libertação amotinada do fogo, existiu um estrondo que ecoou por toda a cidade. Os demónios correm pela cidade, o espelho que nos separa da sua moradia estilhaçou-se, urra o vento, berram os morcegos, gritam as sirenes do carro-patrulha número cinco, seis, um. Jéssica encolhe-se no banco de pendura, a olhar para o seu mestre, o tutor numa hierarquia gerida pelos anos de serviço, este guia a viatura num chiar de pneus, borracha, entra na avenida principal cortando caminho aqueles que precisam de ser protegidos, mesmo quando o não sabem. — Samuel? — Pega no intercomunicador, pergunta à central o que se passa — abrandou um pouco a velocidade para deixar um camião cisterna passar. — Parece a porra de um ataque nuclear. A criatura de olhos negros demorou uns segundos até conseguir perceber o que era o intercomunicador, a adrenalina corria por todo o seu corpo, em conjunto c...