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Chacinando flores

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  Arrancou a flor do chão, rasgando-a do ventre de Gaia, tentando apoderar-se-lhe da beleza e da fragrância.  Sucumbiu, essa mesma flor, pouco depois, solitária numa prisão em formato de jarra, num mundo artificial cheio de arrogâncias e falsidades, longe dos prados que amava, e dos campos floridos da memória perene.  Mais uma filha da mãe terra chacinada por vaidade e inveja, atirada para o esgoto quando dela já nada mais conseguiam extrair.  Gaia gritou em agonia.  — Como ousas tocar no meu jardim?    ****************** Originalmente o texto era só assim:  Arrancou a flor do chão, rasgando-a do ventre de Gaia.  Ela gritou em agonia.  — Como ousas tocar no meu jardim? 

Uma vida alaranjada

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  Com uma sensual brutalidade fui arrancada da árvore onde nasci e cresci, onde vi irmãos e amigos germinarem para caírem num mundo assimétrico, uns com gritos de êxtase, outros de terror. Os pequenos olhos castanhos (sempre amei essa cor) fixavam-me com gula, quem sabe algo mais, quem sabe algo menos, e senti-me acariciada pelos dedos na perfeição do toque, na perfeição da temperatura. A casca foi limpa, quase que lavada num impulso inexplicado (ninguém nunca come a casca) raspas de laranja ao bolo, raspas de mim numa comida qualquer em vossos sonhos. E foi nesse momento que constatei, vi ainda o brilho no gume afiado, e nada senti, sei que fui penetrada na prata cintilante da noite… na laranja da minha casca, mas nada senti! (deveria ao menos ter sentido dor?) O licor da minha vida jorrou para fora num intenso sabor de alma, a minha própria, deixando na atmosfera um aroma cítrico, sabia que gomo após gomo ia saciar a tua fome, a tua sede… a tua gula. E quem me saci...