Uma vida alaranjada

 


Com uma sensual brutalidade fui arrancada da árvore onde nasci e cresci, onde vi irmãos e amigos germinarem para caírem num mundo assimétrico, uns com gritos de êxtase, outros de terror.

Os pequenos olhos castanhos (sempre amei essa cor) fixavam-me com gula, quem sabe algo mais, quem sabe algo menos, e senti-me acariciada pelos dedos na perfeição do toque, na perfeição da temperatura.

A casca foi limpa, quase que lavada num impulso inexplicado (ninguém nunca come a casca) raspas de laranja ao bolo, raspas de mim numa comida qualquer em vossos sonhos.

E foi nesse momento que constatei, vi ainda o brilho no gume afiado, e nada senti, sei que fui penetrada na prata cintilante da noite… na laranja da minha casca, mas nada senti! (deveria ao menos ter sentido dor?)

O licor da minha vida jorrou para fora num intenso sabor de alma, a minha própria, deixando na atmosfera um aroma cítrico, sabia que gomo após gomo ia saciar a tua fome, a tua sede… a tua gula. E quem me saciaria a mim?

À primeira trinca… no primeiro dos meus gomos, gritei, e não de dor como julgara desde que a prata penetrou a minha alaranjada casca… mas sim de prazer!

Como pode algo que deveria causar dor me levar à loucura do desejo? Deixei-me simplesmente ir, gomo após gomo, desejando que nenhum deles fosse o ultimo, e pudesse imortalizar o momento…

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