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A Queda

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  Involuntário, o movimento foi instintivo, já nem se recordava como ali tinha ido parar, apenas sabia que estava naquele local… desamparado, perdido.  Perscrutou o horizonte a tentar encontrar um ponto que reconhecesse, mas tudo se lhe afigurava igual… rochas salientes, pinheiros pintados a neve e uma imensidade interminável de gelo.  A bússola há muito que perdera a sua função, girava numa constância infindável, não existia norte nem sul, nem sequer qualquer outro ponto cardeal, tudo o que subsistia encontrava-se nos limites do seu olhar, o frio e branco toque da morte.  Delineou um projeto, a sua mente traçou todos os detalhes, sobreviver a qualquer custo… mas o corpo estava esgotado, tombou na suavidade cândida do mundo onde se encontrava.  Deitado de costas, a contemplar os flocos que caiam infinitamente, desenhou o seu ultimo anjo, verteu a derradeira lágrima que congelou na sua face e escutou o universo.  Ao longe, nove lobos uivaram ...

Evereste

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  Finalmente superei o ultimo desafio, pernoitei ao relento em vários locais antes de aqui chegar, vi lagos gelados, e florestas cintilantes que me ofuscavam a visão. Agora tudo é branco e tudo é frio, alcancei enfim a pureza do meu ser na candura imaculada da neve. Por detrás dos óculos vejo o sol morrer ao longe, desta vez mais abaixo que em todas as outras. As nuvens estão lá, bem em baixo, e eu deleito-me com cada instante, com cada momento, hoje vejo-as incendiar de cima, conquistarem aquele tom alaranjado da morte anunciada do dia, contrastando com a brancura a meu redor. Estou no topo do mundo, acima da casa dos Deuses… hoje sou eu o próprio divino. Volto para a tenda, antes de entrar vislumbro pelo canto do olho os últimos raios solares expirarem. Esta noite vou dormir com divindades, e está tudo bem. Aqui é o Evereste, a derradeira moradia terrena acima da capital celestial…

Colisão!

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  — Boi dum caralho. — este grito ribombou e ressoou por cima da infernalidade de sons na autoestrada. — Viste a merda que fizeste? Joel ainda estava atordoado, quase nem sabia onde se encontrava, tentou abrir os olhos, apenas conseguiu o direito. As costelas do lado esquerdo doíam-lhe, sentia sangue a escorrer do nariz, enquanto  as suas papilas gustativas eram inundadas pelo sabor férreo característico do mesmo. Deslocou lentamente a cabeça para se conseguir ver no retrovisor, tentar analisar os estragos. Todo o movimento foi acompanhado por pontadas de dor nas costelas. Isto estava mau, ele sabia. O espelho não estava lá, nem o vidro da frente, apenas estilhaços, fragmentos e sangue. Subitamente pancadas na porta. — Estou a falar contigo idiota. — Joel sabia que estas palavras eram vociferadas, apesar de mal as ouvir. Provavelmente tinha danos nos ouvidos também, esperava que não permanentes. — Onde tinhas a cabeça? Esforçou-se para ver quem berrava com ele, ign...

Lua Azul

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 Acordo num sobressalto e levanto-me, estou nu no topo de uma colina. Lá no alto vejo a lua azul… “Azul?” Sob meus pés uma vastidão de areia que se prolonga no sentido oposto do precipício, duas portas a flutuarem no nada, e uma balança com um babuíno no seu topo. Só podia estar a sonhar, sabia isso, a lua não é azul, ou será? Aproximo-me da balança, sinto uma sede imensurável. Do nada uma pluma solidifica-se em pleno ar e plana momentaneamente até pousar num dos pratos da balança. — Bem vindo mortal! — oiço esta voz sobrepor-se ao silêncio desértico em que estava. — Por acaso sabes onde estás? — ontem fiz anos, sabem, ontem fiz anos e apenas senti solidão. Olho em meu redor tentando perscrutar a origem da voz, mas tudo se mantem inalterável… duas portas, uma balança, uma pena e um coração… estaria aqui este coração antes? — Fazes ideia de onde estás? — Indagou de novo a voz, agora com uma ponta de irritação no tom. — Ou sabes porque aqui estás? — ontem fiz anos, sabem, ...