Colisão!

 

— Boi dum caralho. — este grito ribombou e ressoou por cima da infernalidade de sons na autoestrada. — Viste a merda que fizeste?
Joel ainda estava atordoado, quase nem sabia onde se encontrava, tentou abrir os olhos, apenas conseguiu o direito. As costelas do lado esquerdo doíam-lhe, sentia sangue a escorrer do nariz, enquanto  as suas papilas gustativas eram inundadas pelo sabor férreo característico do mesmo.
Deslocou lentamente a cabeça para se conseguir ver no retrovisor, tentar analisar os estragos. Todo o movimento foi acompanhado por pontadas de dor nas costelas. Isto estava mau, ele sabia. O espelho não estava lá, nem o vidro da frente, apenas estilhaços, fragmentos e sangue.
Subitamente pancadas na porta.
— Estou a falar contigo idiota. — Joel sabia que estas palavras eram vociferadas, apesar de mal as ouvir. Provavelmente tinha danos nos ouvidos também, esperava que não permanentes. — Onde tinhas a cabeça?
Esforçou-se para ver quem berrava com ele, ignorando todas as dores do corpo, sentia-se a desfalecer.
Junto à porta do condutor estava um homem de meia idade, encorpado, com a face rubra de raiva, que gesticulava e bradava. Joel vislumbrava, através do olho que a custo mantinha aberto, as veias a pulsar no pescoço daquela aberração de ginásio.
Ao longe sons de sirenes, marcha urgente de ambulâncias, ou bombeiros, ou até mesmo policia, não sabia bem, apenas sabia que vinham por ele.
Lembrava-se de ter entrado na autoestrada, de estar em velocidade constante abaixo do máximo permitido, sempre tinha sido um condutor exímio, e lembrava-se de ver as luzes de travão do carro à sua frente serem acionadas. Pôs o pé no freio, mas nada aconteceu, foram apenas segundos até ao impacto bruto.
Nova cacetada, seguida de um estilhaço de vidros.
— Olha para mim quando falo contigo palhaço. — Joel não fazia ideia do que o senhor músculos queria dele, à primeira vista o achaparrado de bigodes fartos estava intacto, enquanto que ele estava uma lástima. — Deixa que eu mesmo te arranco daí para te desancar, meu anormal.
Pelo canto do glóbulo ocular funcional, o caolho mirou o seu fagote partido em dois no banco do pendura, enquanto os monstruosos braços do senhor bigodes invadiam a privacidade do carro  despedaçado, teria que servir. Pegou-lhe num ápice, felizmente os seus membros superiores pareciam estar funcionais, e desferiu um golpe rápido ao antebraço do perpetrador, metade deste instrumento musical ficou ali cravado.
O senhor ginásio recuou para trás, guinchando tanto de dor como de estupefação, as sirenes estavam agora muito mais próximas, as luzes azuis já enchiam o cockpit do carro.
Pela primeira vez Joel sorriu, revelando um dente partido, o airbag tinha sido avassalador.
— Meu amigo, — disse para o senhor bigodes em voz fria e pausada. — o tentativa de deus grego esbugalhou os olhos, abriu a boca para proferir algo, enquanto que por trás se ouviu o som de portas a fecharem e passos a iniciarem uma corrida, arrependeu-se, existia algo na voz, algo no olhar que o assustou. — é melhor ires tratar desse braço e desapareceres da minha vista, senão…
— Senhor, senhor, está bem, consegue me ouvir? — escutou de alguém que vinha a correr na sua direção, um paramédico, presumia.
— Estou vivo. — olhou para o hulk em miniatura e terminou a sentença — … vais de patins.

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