A Queda
Involuntário, o movimento foi instintivo, já nem se recordava como ali tinha ido parar, apenas sabia que estava naquele local… desamparado, perdido.
Perscrutou o horizonte a tentar encontrar um ponto que reconhecesse, mas tudo se lhe afigurava igual… rochas salientes, pinheiros pintados a neve e uma imensidade interminável de gelo.
A bússola há muito que perdera a sua função, girava numa constância infindável, não existia norte nem sul, nem sequer qualquer outro ponto cardeal, tudo o que subsistia encontrava-se nos limites do seu olhar, o frio e branco toque da morte.
Delineou um projeto, a sua mente traçou todos os detalhes, sobreviver a qualquer custo… mas o corpo estava esgotado, tombou na suavidade cândida do mundo onde se encontrava.
Deitado de costas, a contemplar os flocos que caiam infinitamente, desenhou o seu ultimo anjo, verteu a derradeira lágrima que congelou na sua face e escutou o universo.
Ao longe, nove lobos uivaram num coro canídeo, um vento cortante trouxe-lhe cânticos perdidos dos confins da era dos Deuses, a primavera do homem estava para chegar, mas ali, de costas… a auscultar o cosmos, ele sabia que jamais veria a sua essência descongelar.

Comentários
Enviar um comentário