O resto do que fui
Com passos lentos e um cigarro entre os dedos percorro esta selva de
cimento, contemplo o vácuo preenchido por almas penadas, simples
espíritos sem função ou destino, que deambulam por estes mesmos trilhos
em busca do que há muito perderam… talvez em busca de si mesmos.
Através
de um olhar melancólico entrevejo as sombras pintadas a néon, os
vermelhos verdes e azuis a tentarem sonegar a cinza deste cinzeiro a que
chamam cidade… embelezar esta puta escarlate que nos suga o ânimo até
ao tutano.
Encolho os ombros, sou uma alma por domesticar, uma
presença impercetível, apenas mais um numero entre tantos. Refugio-me na
solitude… e tento acreditar que tudo está bem nesta passerelle de
vaidades.
Puxo o capuz do casaco, protejo-me da chuva, do frio, mas
não da sagacidade desta cidade… sinto teu odor nauseabundo, podridão da
humanidade, esgoto a céu aberto para os deuses contemplarem a merda que
fizeram…
e ao olhar para mim, vejo que tudo o que sobrou foi o vazio e uma rosa.
A
luz vermelha no semáforo pisca interminavelmente, como se se tratasse
do coração da metrópole. Dou um passo em frente, desisti… já nem quero
mais saber!

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