Meditação
Piquenique, a tolha está colocada sobre a relva, sim, nas ervas algures no campo, pois nem tudo terá que ter areia, água salgada, ondas e abismos (o abismo sou eu).
Coloco lado a lado a uva colhida e a uva esmagada, fruta e vinho. Alimento para o corpo, bebida para o espirito.
A ti brindo, Baco, neste dia, uma nova alvorada.
Dou um gole deste cálice adornado a lágrimas, sinto o frutificado sangue de uma qualquer divindade que prefere os homens alcoólatras ao invés de hidratados, envolver as minhas papilas gustativas, aquecer-me o esófago e descer.
A temperatura está amena, deixo os raios solares acariciarem a minha pele, afagar-me os pelos, aquecerem o meu eu externo, para que este se sintonize com o interno, sinto o vento roçar a minha existência, dá-me conforto, dá-me alento, por um momento sussurra-me o lamento de um Rei, ou será de um fauno?
Cheira a flores silvestres, pinheiros, amoras, ao lago (afinal apesar de não salgada, teria que existir água), existe o aroma das ervas, do musgo, até mesmo dos patos que não vejo e dos coelhos que correm em liberdade.
Ouço as aves nos céus a grasnarem, talvez, quiçá, os patos do lago. Neste mesmo lago escuto os peixes a saltar, se me atentar, poderei até ouvi-los a nadar. Os coelhos correm entre os arbustos, consigo ouvi-los, os ouvidos captam também o som de uma corça e o seu progenitor.
Fecho os olhos, calço os patins dos sentidos, estou em sintonia, harmonia, sou eu e tu, mãe terra… somos nós unidos, aqui, neste piquenique, somos energia, fusão de seres, de almas…
Para que estou a viver? Estou a viver para sentir, os cinco sentidos mais o espirito, estou a viver para me deslumbrar e ser deslumbrado, estou a viver para mim e para ti, por e para todos… somos união, somos energia… vivo para vós, povo da terra, desde o átomo até à majestosa grandeza do universo.
Vivo para ser uma partícula de pó na ampulheta universal que uma criança balança.

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