Receita em 3 Atos

 

Prefácio

Deleitar-me-ei com os teus peitos esta noite.
Desde que me levantei a visão da sua delicadeza não me sai da mente, o seu tamanho… ideal, nem demais, nem de menos… são perfeitos, dignos de uma Rainha.
Quanto pesarão nas minhas mãos, qual será a sua textura ante meus dedos? Ante minha língua?


 

Ato 1


Pego na faca e testo o gume na unha, travou nesse embate, está perfeita.
Descasco habilmente três dentes de alho que coloco ao lado de umas folhas de louro roubadas da coroa de um qualquer Romano.
De relance contemplo os peitos e sorrio, sinto-me salivar em antecipação. Serei eu o cão de Pavlov?
Retiro uma mão cheia de sal que coloco imediatamente num recipiente, vendo-o brilhar, quais estrelas luminárias da escuridão, junto-lhe pimenta preta moída e ervas colhidas de uma horta há muito esquecida, uma memória para lá da memória, sei que com elas vieram os cogumelos brancos que estão ali, bem perto, laminados, destruídos e destituídos da sua forma orgânica.
Dou um trago do cálice de vinho tinto, brindemos a nós, amor.
O peito repousa e a ansiedade aumenta.
Uma vez que estou com a faca na mão, degolo o príncipe limão e suas duas irmãs, donas laranjas, que foram furtados do jardim de Adão… onde está tua serpente, Eva?
Divido o sangue deles em cálices separados, as princesas ensanguinham-se num lado em solidão, o príncipe junta-se ao cósmico recipiente onde o sal, a pimenta e os demais estão juntos.
Adiciono vinho branco à cósmicidade recipiental do sal, ervas, pimenta, louro, sangue de príncipes e alhos que agora foram esmagados, tudo isto numa papa universal, quase uma comédia divina.
Misturo-os a todos com uma colher, para os sabores se entrecruzarem, entrechocarem e fundirem, verto-os então sobre os peitos, que envolvo docemente entre meus dedos, de forma delicada, sentindo finalmente o toque, textura, temperatura… deixando-os absorver o meu próprio tato, levo um dedo aos lábios, extasiando-me no sabor… amasso-os, pincelo-os com as próprias mãos, a ânsia cresce, a saliva volta… e o odor que deles emana eleva-me para lá dos confins dos tempos.
Dou um trago do cálice de vinho tinto, brindemos à solidão, minha deusa da morte!

 


 

Ato 2


Tapo o receptáculo onde repousam, e trincho agora com a faca de gume afiado rodelas de uma cebola roxa, não choram meus olhos, podiam perante a morte, mas nenhuma lágrima é vertida.
Estou seco, sinto-me seco… preciso de Baco.
Rego uma frigideira com azeite, quantos filhos de oliveiras terão sido sacrificados em prol de tão precioso liquido? Junto-lhe as rodelas roxas da cebola que não me fez chorar, as lágrimas estão esquecidas, mas jamais os peitos… brindemos, senhora dona morte, ditadora do meu coração.
Quando estão no ponto, e a cozinha inundada pelo seu tão delicioso odor, retiro-as e reservo-as, como em tempos reservei a alma para uma divindade…
Chegou então o momento da verdade, coloco a carne na frigideira, após ter adicionado um pouco mais dos esmagados filhos das oliveiras, e vou delicadamente mexendo, não podem queimar… baixo a temperatura e espero o instante em que a vejo criar cor… este é o momento, retiro-a da tortura a que foi submetida, e deixo-a repousar num recipiente distinto do da cebola…


 

Ato 3


Na mesma frigideira coloco então manteiga e farinha, vou mexendo para não queimar, sempre em lume baixo, até que por fim quebro a solidão do sangue das princesas… rego a manteiga e farinha com este sangue monárquico, e vou revolvendo… a pouco e pouco tornam-se espessas, não muito… um creme alaranjado, ao qual adiciono mais estrelas de sal, ou sal das estrelas, não me recordo, neste momento sinto-me perdido… mas continuo a rodopiar a colher de pau… ao creme dinástico adiciono  agora a cebola, e posteriormente a carne… vou mexendo um pouco, envolvendo suavemente, mantendo a chama acesa… quero-a quente, mas não em demasia, ainda não é o ensejo.
Finalmente desligo a chama, acalmo-lhe a temperatura como se tudo fosse um jogo, talvez até mesmo sedução e sexo tântrico.
Num prato com arroz adiciono esta carne, cebola e creme de laranja, inalo os odores… com os próprios dedos agarro num dos pequenos pedaços do peito de galinha e coloco na boca, sentido todos os sabores num só…
Este é o momento, o êxtase, o orgasmo total das papilas gustativas…


 

Posfácio


Desde que acordei que não me conseguia focar em mais nada senão nestes peitos… um manjar digno de deuses.
Acendo uma vela e removo a máscara, esta noite não é carnaval, mas poderia.
Ergo o cálice à lua…
— Brindemos, deusa dos vivos!


 

Pós Créditos

— Oh merda, esqueci-me dos cogumelos.

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