Pó de arroz
Vadio!
Esse era o nome pelo qual mais o chamavam, um verdadeiro
vagabundo, e odiava, no fundo da sua alma e na flor da sua derme
abominava essa denominação.
Todos o olhavam através dos seus olhos,
um deslumbrante arco-íris ótico que o julgava, censurava e oprimia… que
sabiam eles? Nada, apenas presumiam e falhavam, mas o gaudério
permanecia na conspurcada perceção daqueles ignóbeis seres.
Como ele os execrava.
Nem
um único lhe deu a mão quando todo o seu mundo desmoronou que nem
cartas ao vento, para si sobraram unicamente memórias, dor e mágoa… terá
que viver com essa recordação até ao final dos seus dias “tudo é mais
belo com um pouco de pó de arroz!”.
Não passava um único dia sem na
sua mente, aquele local entre os dois ouvidos, ter uma disputa… morrer
ou viver… acabava ininterruptamente por escolher a vida, seria ela a sua
penitência.
E agora encontra-se aqui, num barco prestes a chegar à
costa, longe da lixeira que um dia chamou de casa, conseguiu deixar para
trás todos os desprezíveis cidadãos de bem, seus carcereiros mentais,
acusadores reles que jamais o deixavam esquecer…
Sentia-se
importante, “vejam onde o indolente chegou.” enquanto se deleitava com o
sol a aquecer-lhe a face imaculada de barbas, os salpicos a
arrefecerem-lhe a pele morena, o aroma a sal deste mar e odor de medo
dos homens…
Em minutos chegou à costa, pegou no estandarte, saltou
com o bote ainda em movimento, correu pelas areias com fúria e ira na
expressão e nos berros… viu os clarões, ouviu os estrondos… as suas
vestes tingiram-se de vermelho e tombou nas húmidas areias de uma
desconhecida praia, a disputa tinha chegado ao fim.
“Tudo é mais belo com um pouco de pó de arroz!”.

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