Esbolar

 Acariciou-lhe levemente os poros, talvez numa tentativa de remover as impurezas, ou então, quem sabe, por gostar daquele toque, da textura...
Sentou-se, e junto à árvore contemplou-a, absorveu toda a beleza da sua estrutura, a delicadeza na sua cor, o ameno da sua pele!
Levou as calejadas mãos ao cinto, e apalpou o cabo de chifre da sua faca, ultima prenda do pai que há muito houvera partido, puxando-a gentilmente para fora, libertando-a das amarras, permitindo-lhe respirar e viver através do aço e chifre.
Encostou-lhe o gume, e sem muita pressão sentiu-o trespassar, invadir a zona carnuda. Quase nesse instante sentiu a viscosidade vermelha que dela brotou alastrar-se ao longo dos seus dedos, e o perfume embriagá-lo.
A medo levou a mão ao rosto, o bálsamo para junto das suas narinas, e aspirou a doce fragrância, lambendo no mesmo instante a ponta dos seus dedos… como adorava o paladar, quase inigualável neste mundo de falsas retidões e mascaradas aparências.
Habilmente começou a pelá-la, separar o conteúdo carnudo daquela casca, daquele casulo, deixando-o totalmente visível em forma e formato.
Os sentidos foram arrebatados na totalidade, a composição era sublime em demasia, estranhamente recordou um excerto de Nick Cave “All beauty must die”, enquanto os olhos estavam hipnotizados pela magnificência.
Sem se aperceber tocou-lhe com a língua e sorveu como que enfeitiçado, mas isso não lhe bastou, não foi suficiente para acalmar a sua avidez. Cravou-lhe os dentes e arrancou-lhe um pedaço “da tua vida para a minha!”, e acordou do seu encantamento… sentindo ainda o aroma, e o vermelho aveludado na sua boca, sabia que tinha feito asneira, esta era para ter ficado imaculada… despida do seu invólucro, mas intocada.
Olhou à sua volta para todas as outras que estavam tombadas, inertes, e escolheu a que mais se aproximava em excelência da primeira, inspirou profundamente, levantou-se elevando os olhos de um castanho profundo em direção aos céus, mirou as parcas nuvens que se moviam preguiçosamente, sentindo na sua impecavelmente barbeada face o calor do sol, um Deus ausente.
Pegou na ameixa e rumou para casa.


 

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