Ritual de anestesia
— Cabeça de vento!
Roberto desviou o olhar das palhas momentaneamente e, irritado, fixou-se no amigo que não se calava faziam já dez minutos.
— Que culpa tenho eu Zé? Cala a porra da boca e ajuda-me a encontrar isto.
—
Ai é? “Encontrar isto”?! — retruca o amigo em tom provocador — Primeiro
queres vir para o palheiro fumar erva… a minha erva, depois pedes-me
para a ver, no final deixas cair essa merda e ainda tens coragem de me
pedir ajuda?
— Mas queres fumar ou não?
Desta feita Zé não
respondeu, simplesmente encolheu os ombros e baixou a cabeça em direção
ao pasto amontoado, começando a vasculhar tudo com o seu olhar cinzento,
ainda a tentar compreender porque passou a ultima erva que tinha ao
amigo “Idiota… nah, ele não é idiota, o idiota sou eu!”
— Zé, Zé!
— Que foi? Encontraste?
— Não pá, mas encontrei um extintor aqui no meio das palhas deitado, até parece o menino Jesus no Natal!
O
franzino rapaz de olhar cinzento encara perplexo o objeto vermelho que o
amigo lhe está a apontar, franze o sobrolho e desata às gargalhadas,
daqueles prazerosas, que fazem lágrimas rolar pelo rosto e a barriga
doer.
— Extintor? E ainda não fumaste nada. Isso é um agrafador,
sabes. Não extingue nada, apenas agrafa. — E rompe em mais estridentes
gargalhadas enquanto se imagina vestido de bombeiro a combater
heroicamente um fogo com o seu imponente agrafador escarlate, até que a
vê, do lado direito do “extintor” estava a sua erva, levanta a cabeça
para cima, e coloca as mãos em forma de prece “obrigado Deuses deste
agnóstico teísta”.
Apanhou-a num ápice antes que o mãos de manteiga
do amigo desse por ela, e começou de imediato a desfazê-la para a mão,
enrolando de seguida o seu charuto.
— Roberto, vamos, bora daqui para fora.
— Mas… e a erva?
— Cala-te pá, já aqui está, deitadinha numa linda mortalha.
Saíram
do palheiro, e iniciaram o ritual de anestesia junto ao pessegueiro,
ali não corriam risco de incendiar nada, exceto as suas cabeças.
No ultimo bafo, o mãos de aranha vira-se para o amigo:
— Estou com uma larica!
— Vamos p’ra casa, tenho lá uma cornucópia.

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