Através da janela junto à asa ele vislumbrava e deleitava-se com tudo o que surgia perante os seus olhos, parecia um sonho como aqueles que assolavam a sua infância, onde caía sem parar, embora desta vez flutuasse. O rio de um azul incomparável, atravessado por uma ponte e todos aqueles carreiros de formigas que se dividiam por entre as casas, pareciam pequenos blocos de lego a esta distância. Os carros e camiões sem parar, seres minúsculos, atarefados a colocar Lisboa em funcionamento. Todas as peças são importantes neste quadro da vida. No final da ponte conseguia distinguir o guardião de braços abertos, Rei soberano na eternidade do momento. Ao longe, na vastidão, ínfimos fiapos de nuvens moviam-se preguiçosamente, embalados pela brisa que ele quase jurava passar pelo seu corpo e acariciar a sua pele, mesmo estando vestido com o melhor dos fatos. Ao voltar de novo a atenção para baixo, para o mundo que conhecia, via os verdes e o castelo, as colinas e o jard...
“… feminino, totalmente dilacerado. As autoridades acreditam que tenha sido um ataque de urso, contudo não avançam com mais detalhes. Contínua a busca sobre a identidade da adolescente. A descrição segue acima, tal como um retrato robô de como seria. Se alguém a conhecer entre em contacto com as autoridades locais.” * * * — Jéssica, vamos. Ela estava atónita, os olhos percorriam o corredor; do teto caiam pingos de água gelada, condensação da eternidade notívaga, a noite no inferno por vezes tem essa qualidade, congelar o plano absoluto dos seres vivos. Abrandou na primeira curva, queria manter-se perto do tutor, o seu mestre de anjo, mas não conseguia, as pernas afrouxaram, até que parou por completo. Observou tudo a seu redor, como poderia chover dentro de uma caverna, no coração da mais frágil das crianças? Nas paredes cresciam rosas, mais uma impossibilidade existencial, subiam ao teto e desapareciam pelas paredes, fundindo-se com a rocha, umas brancas como a candura, outras n...
Novidade, naquele instante tudo era recente, o mundo tal como o conhecíamos alterou, e com ele transmutou-se a realidade. Os espelhos infinitos da eternidade estilhaçaram-se… “espelho meu, espelho meu, existirá alguém mais belo do que eu?” Libertaram-se demónios do passado, anjos do futuro e demências de reis que acreditavam ser vampiros. “espelho meu, espelho meu, porque me escondes o reflexo?” A linha temporal parou, estagnou naquele momento entre um bafo num cigarro e o tic tac do ponteiro dos segundos no relógio de Cronos, o tic veio, o tac esqueceu-se… o plano físico estancou ali, tornou-se eterno… onde apenas existe presente, sem passado ou futuro, uma fotografia no espelho “espelho meu, espelho meu…” de uma divindade que nos abandonou. Dizem que o tempo é uma linha continua em direção ao desconhecido, pois para mim é um circulo que se completa, acredito que se tivermos um mapa do momento que queremos revisitar, basta-nos esperar que a linha passe de novo pela o...
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