“… feminino, totalmente dilacerado. As autoridades acreditam que tenha sido um ataque de urso, contudo não avançam com mais detalhes. Contínua a busca sobre a identidade da adolescente. A descrição segue acima, tal como um retrato robô de como seria. Se alguém a conhecer entre em contacto com as autoridades locais.” * * * — Jéssica, vamos. Ela estava atónita, os olhos percorriam o corredor; do teto caiam pingos de água gelada, condensação da eternidade notívaga, a noite no inferno por vezes tem essa qualidade, congelar o plano absoluto dos seres vivos. Abrandou na primeira curva, queria manter-se perto do tutor, o seu mestre de anjo, mas não conseguia, as pernas afrouxaram, até que parou por completo. Observou tudo a seu redor, como poderia chover dentro de uma caverna, no coração da mais frágil das crianças? Nas paredes cresciam rosas, mais uma impossibilidade existencial, subiam ao teto e desapareciam pelas paredes, fundindo-se com a rocha, umas brancas como a candura, outras n...
Através da janela junto à asa ele vislumbrava e deleitava-se com tudo o que surgia perante os seus olhos, parecia um sonho como aqueles que assolavam a sua infância, onde caía sem parar, embora desta vez flutuasse. O rio de um azul incomparável, atravessado por uma ponte e todos aqueles carreiros de formigas que se dividiam por entre as casas, pareciam pequenos blocos de lego a esta distância. Os carros e camiões sem parar, seres minúsculos, atarefados a colocar Lisboa em funcionamento. Todas as peças são importantes neste quadro da vida. No final da ponte conseguia distinguir o guardião de braços abertos, Rei soberano na eternidade do momento. Ao longe, na vastidão, ínfimos fiapos de nuvens moviam-se preguiçosamente, embalados pela brisa que ele quase jurava passar pelo seu corpo e acariciar a sua pele, mesmo estando vestido com o melhor dos fatos. Ao voltar de novo a atenção para baixo, para o mundo que conhecia, via os verdes e o castelo, as colinas e o jard...
Hoje pensei em sair, ir para fora de mim, contemplar o mundo com estes olhos que de avelã nada têm. Peguei-te, toquei-te, cheirei-te e senti o teu aroma invadir todos os poros da minha pele, a derme que já transpirava apenas por um vislumbre teu. Pertenci-te, fui teu, ali sentado num sofá de cabedal falsificado num mundo imaginário, sem sol nem estrelas, nem dores ou alegrias… és o meu mundo, tornaste-te ele, ali, naquele ápice especial, sem necessidade de sinalética. Decidi ficar, ser um benjamim no teu jardim, beijar-te as pétalas como quem vira a página de um livro… e tanto que sei a necessidade de virar as minhas. As palavras sei-as de cor, tal como todos os tons do teu cabelo, o perfume é mágico e inalo-te, és livro e uma história, foste palavras sentidas, e agora, aqui sentado a ler o passado, sinto alegria, sei que foram momentos e eles constroem presentes. Como presente, concedo-te o futuro… viverás perene na minha anamnésia, libertemo-nos da gaiola que nos p...
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