...Perdida
— Lança, vá, atira essa merda.
Gustavo observava-a pasmo, embora o olhar estivesse turvo, a audição parecia melhorar a cada segundo que passava. Tinha a certeza que em toda a sua vida, jamais tinha ouvido palavrões a surgirem da boca de Catarina.
Ela ria, e contemplava a ria que iria desaguar algures, nem tinha a certeza de ser uma ria, isto é… tinha água, tinha erva nas imediações, poderia ser apenas uma ribeira, um riacho, a saliva de Gaia, mas enfim, hoje ela ria na ria.
— Vá Gustavo, mexe esse cu gordo e atira o calhau, quero ver se consegues tantos ressaltos como eu.
O rapaz, catraio ainda, mirou a água e a pedra que tinha nas mãos, atirou-a ao ar para lhe tomar o peso, sentiu uma pontada na mão esquerda, naquele local exato onde o estúpido do irmão o tinha mordido de manhã, e arremessou-a para trás.
— Esta não, é muito pesada, espera — murmurou, sentindo a garganta seca, áspera, quase sem reconhecer as próprias palavras.
A mão libertava um pus, que tingia a ligadura de amarelo, sobrepondo-se ao vermelho-escuro do sangue seco. Sentia um formigueiro a ascender-lhe o braço, e escutava as asas das libelinhas que pairavam sobre a água a bater claustrofobicamente, como remos de caravelas sem velas.
Vasculhou as margens em busca de um seixo mais leve, liso, algo que flutuasse como uma pena ao vento, ela era a sua namorada desde a primeira classe, e agora, nos seus oito anos mal feitos não queria ficar envergonhado perante a menina de trancinhas negras, a dor estava presentemente na clavícula, sentia dificuldade em respirar.
Finalmente encontrou-a, era perfeita, tinha o tamanho exato do seu carro de polícia que estava junto aos soldados da paz, como os adorava este rapaz, a mão ardia.
Observou Catarina, que estava ao sol a bronzear mais ainda a sua cara sarapintada de sardas, sentiu uma náusea, a bílis a querer subir pela garganta, engoliu-a de volta, sentindo-lhe o sabor ácido.
— Esta é perfeita Catarina, queres ver? — forçou-se a rosnar entre dentes, sentindo um odor nauseabundo vindo da sua boca empestar o ar. — Vou fazer um milhão de ressaltos, vai daqui até à lua.
Ela pulou de alegria, tinha fé no seu amigo, o eterno parceiro de brincadeiras, aquele que lhe mostrou que a vida é uma festa, nem que seja uma que apenas as crianças vejam.
— Atira, Gustavo, atira isso agora, eu conto.
Ele puxou o braço atrás, o mesmo braço com que a empurrava no baloiço que está no jardim das fontes, fechou os olhos e lançou a pedra.
A menina começou a sua contagem.
— Um, dois, três, quatro, olha, um passarinho azul. Sete, oito, nove, — Rodolfo, o cão que levaram com eles latiu, lá atrás, ela desviou o olhar, contando mentalmente o que não via. — Dez, onze. Rodolfo, vai apanhar a bola. — O cão ganiu e fugiu, Gustavo apoiou-se nos joelhos, sentindo contração em todos os músculos, e a pedra já não se via mais. — Oh! Já não vejo os salpicos.
Ele teve mais duas contrações musculares, vomitou uma vez apenas, inundando o cão com os restos do almoço ainda por digerir. Os olhos tornaram-se raiados de sangue, e um ódio imensurável aflorou-lhe à pele.
Saltou na direção da magrela menina de tranças negras, cravando-lhe os dedos no pescoço, como a adorava ele, a sua força e agilidade tinham multiplicado enormemente, sentia-se um deus das profundezas.
Enterrou os dedos até estes lhe rasgarem a traqueia, o sangue espirrou, sentiu-o quente, na sua própria derme, no rosto, nos lábios que lambeu.
Enfiou-lhe a mão vaga dentro do pescoço e pressionou até lhe conseguir separar a cabeça do corpo, que tombou inerte numa poça escarlate fumegante.
Gustavo encolheu então os ombros, piscou o olho, enquanto desviava o cabelo de palha da testa ensanguentada, virando a cabeça de Catarina em direção à ria. Agora já não ris, pois não?
— Esta, Catarina —grunhiu entre uma gargalhada bárbara. — À velocidade que ia, já está de certeza com os golfinhos, no mar.

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