Desvanecendo-se

 


É final de tarde, uma vez mais cais na rotina do teu dia a dia, sabes que tens que passar pela máquina que roboticamente te agradece, observando fixamente a tua retina e guardando toda a informação numa base de dados algures na névoa binária. Sentes um gélido calafrio percorrer o teu corpo e os pelos eriçarem-se. Na mente vem a ideia, nunca o consegues evitar “ladra de almas”.

Passas pelo segurança, e afavelmente desejas um até amanhã, com um sorriso nos lábios, não um até já, e jamais um simples boa noite, mas apenas as descomplicadas palavras de até amanhã atravessam os sorridentes lábios meio escondidos pela barba.

Já no exterior retiras a carteira e olhas… “ainda dá para uma cerveja, talvez duas, será que me apetece mais?” Optas pelo primeiro e partes em direção à esplanada.

Com um simples aceno de cabeça cumprimentas quem te não conhece, pequenos gestos que partem quase que impercetíveis a ti mesmo. Cordialidades do ser humano.

Dentro do bar pedes uma cerveja da tua marca preferida, gelada, sorris novamente apenas com os lábios, pagas, pegas nela e diriges-te à mesa onde os amigos estão entre risadas e bafos de tabaco. Sentas-te cumprimentando todos. Escutas com atenção tudo o que falam para conseguires acompanhar a conversa do hoje.

O ultimo gole de cerveja é tragado, pedes uma nova, a conversa é desinteressante, os risos são muitos “que merda faço eu aqui?” e entras na conversa, talvez para não pareceres rude perante a sociedade em que resolveste entrar. Após a finalização da ultima cerveja, sorris de novo com os lábios (se te vissem os olhos) e partes para o exterior, não neva, mas poderia.

De novo no exterior um pensamento assola-te a mente, um quase tão rotineiro quanto a tua rotina, e nessa rotina espiritual tens uma discussão contigo próprio. “Não aprendeste nada no bar.” “Que merda, se eu quisesse aprender ia para uma biblioteca, não para um bar!”, e desvaneces-te na obscuridade da noite.

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