De Anjos e Fadas (Capitulo 1)

 

CAPITULO 1 — UMA MOSCA NO JARDIM

Meia-noite em ponto, Amy levantou-se do canto onde até ao momento tinha estado sentada; sozinha, numa solidão maior que todas as outras vezes.

Dirigiu-se ao balcão, pagou o que consumiu, pediu de volta o seu casaco; um daqueles longos, de cor escura, que vão até aos joelhos, para a proteger do frio que estava no exterior.

Saiu, abriu a porta, a campainha tocou… toca sempre que entram e saem clientes, e começou a caminhar, deixando para trás o ambiente de tabaco e de álcool, as risadas e gritos noturnos ocultos entre quatro paredes, escondidos num bar…

A noite estava gelada, Amy aconchegou-se no seu casaco… uma lua cheia, em conjunto com os candeeiros, iluminava as ruas, embora palidamente, pois o nevoeiro semicerrado que encobria a cidade, tentava omitir-lhe o brilho.

Ela começou a percorrer o caminho que todos os dias fazia, mais ou menos à mesma hora, em direção a casa. Hoje tinha pressa, uma estranha sensação percorria-a, não sabia bem porquê, mas algo não estava bem, precisava da proteção do seu lar, e devido a isso aumentou as passadas.

Quase que voava, rua após rua, desertas na sua plenitude à exceção de um ou outro táxi, mas ela repudiava-os, sempre os abominou, mesmo sem conseguir justificar o porquê… não se sentia segura dentro deles.

Virou numa esquina, e adentrou pelo jardim, o caminho mais rápido para a sua casa… entrou, passando entre árvores e flores… sentindo o aroma noturno de todos eles… inesperadamente, um som… passos: “estranho, nunca ninguém passa aqui a estas horas da noite!”.

Aumentou ainda mais o seu andamento, ouvindo os passos atrás aumentarem também a sua intensidade, sentiu-se entrar em pânico, afinal a estranha sensação tinha a sua razão de ser…

Sem coragem sequer de olhar para trás, ampliou ainda mais a sua velocidade, abriu-se o casaco que agora ondulava ao vento enquanto começou a correr…

O medo apoderou-se dela, quem seria a pessoa, que quereria, porque viria atrás dela? Na sua mente passaram excertos de imagens rodopiantes e estonteantes que todos os dias ela lia em jornais, ou via na Televisão, “Jovem assassinada na noite lisboeta!”; “Mais uma mulher foi vítima de violação durante a noite!”; “Assaltantes roubaram, violaram, humilharam e posteriormente mataram uma estudante universitária no seu percurso noturno para casa!”.

Tudo imagens que lhe atravessavam a mente, enquanto corria… os passos de quem quer que viesse atrás amplificaram também para corrida, ela ouvia-os nitidamente, “Irei eu aparecer na primeira página do jornal, amanhã?”.

Virou na segunda rua do jardim, viu uma pessoa ao fundo e dirigiu-se para lá… um homem, a sua salvação… quem quer que viesse atrás não teria coragem de fazer fosse o que fosse se a visse com outro alguém… correu para lá… para a salvação… a lua no céu começou a ficar encoberta, a neblina noturna principiou a metamorfosear-se em pequenas nuvens, que já lançavam uma chuva muito miudinha, quase impercetível, para a terra… a acompanhá-la, um vento gelado, mas Amy não sentia nem um, nem o outro, apenas sentia medo… pânico quase descontrolado.

Chegou rápido perto da figura que tinha visto ao longe…

— Desculpe, desculpe, ajude-me, vem alguém a perseguir-me, ajude-me por favor!

O homem deu mais um bafo no seu cigarro, olhou para trás de Amy, para quem vinha atrás dela, fosse quem fosse, já não corria, apenas caminhava vagarosamente, com os olhos colocados nela… o salvador observou-a, sorriu… um sorriso que fez o sangue nas veias de Amy gelarem… era um sorriso frio… um sorriso falso… o sorriso de um predador antes de apanhar a sua vítima.

“Não…” pensou Amy, não podia ser, só podia mesmo ser o pânico a falar por ela, não podia ser… o salvador não podia ser o predador…

Uma briga de gatos fez-se ouvir ao longe… o vento começou a uivar entre as árvores e a chuva aumentou a sua intensidade… Amy tentou sair de onde estava, procurou dar a volta ao homem, mas foi agarrada. Um punho fechou fortemente em volta do seu pulso… não podia ser… a salvação tinha mudado de nome… a salvação era agora morte… as imagens dos jornais e TV aumentaram a potência na sua mente… “Deus… que te fiz eu para merecer este castigo?”.

O segundo homem chegou, e pela primeira vez ela ouviu-lhe a voz rouca de tabaco.

— Corre, corre pequena mosca, corre… corre em direção à teia que a aranha preparou para ti.

Amy observou, viu os olhos negros do homem, viu a língua dele passar nos lábios, num gesto que a deixou nauseada…

— Temos uma surpresa para ti. Diz-me, será a bem ou será a mal?

Amy fez força, procurou livrar-se do punho do primeiro homem, contudo ele apertou ainda com mais força, quase esmagando os frágeis ossos do pulso de Amy… puxou-a violentamente para si, e nesse ato ela sentiu-lhe o hálito quente e nauseabundo que vinha da sua boca.

— Parece que aqui a cadela precisa levar um ensinamento para começar a respeitar os seus donos — disse numa voz ainda mais rouca que a do senhor-teia-de-aranha, mais podre!

Ele atirou-a para o outro… nesse momento ela sentiu-se como uma boneca de trapos, uma marioneta nas mãos de uma criança que facilmente é jogada de um lado para o outro… tentou fugir uma vez mais… ainda iniciou o passo, mas foi agarrada pelo casaco; o homem era forte… o senhor-teia-de-aranha era ainda mais forte que o senhor-podridão.

Este arremessou-a para o chão, rasgando-lhe o casaco no ato… ficando com pedaços dele, na mão, como se um troféu fosse.

— Olha Pedro — afinal o senhor-podridão tinha nome. — Um escalpe!

Pedro riu, um riso que fez com que o sangue nas veias dela congelasse… era a segunda vez nessa noite.

O senhor-teia-de-aranha olhou para Amy… tudo o que ela lá viu, foi ódio, a crueldade na sua mais animalesca existência.

— Tentaste fugir? De nós? Mas que merda te levou a pensar que conseguias, cadela?

Pontapeou-a, um pontapé direto ao abdómen; a dor foi dilacerante, intensa… baixou-se então o senhor-teia-de-aranha e contemplou-a, lambendo de novo os lábios (nojo e repulsa) ergueu-a pelos cabelos… a atenção na dor do abdómen foi desviada para essa…

— Pedro, vem, vamos mais para ali, este local é muito à vista.

Amy foi arrastada pelos cabelos, tentou gritar, mas o pânico era demasiado… nenhum som foi emitido pelas cordas vocais.

Ao entrarem mais para dentro da escuridão entre as árvores e flores, ela viu pela primeira vez uma peça na mão do senhor-teia-de-aranha… um objeto luminoso, viu a cintilação nos olhos dele. — Então pequena mosca, diz… a bem, ou a mal? — enquanto a lâmina de uma faca arrancava-lhe botão a botão da sua camisa branca, abrindo-a dessa forma.

Não conseguiu responder, o senhor-teia-de-aranha desferiu-lhe um golpe pleno na sua face, um golpe de mão fechada, não com a lâmina, mas sim com o punho… a dor foi ainda mais lancinante, ela sentiu o sabor metálico do sangue na sua boca, nos seus lábios…

Arregalou os olhos, não queria acreditar… Pedro segurou-a, enquanto o primeiro continuava a passear com a faca, faltava apenas um último botão, que foi derrubado da sua casa e deitado ao chão com o passar do gume da faca.

— Quietinha, nem um som, pequena mosca.

“Mas, porque raios me chamam pequena mosca?” — pensou, e sentiu então a lâmina fria a passear na sua pele nua em direção ao peito, ao sutiã… sentiu a faca a cortá-lo como se fosse manteiga, deixando os seus seios rosados a descoberto.

Tentou gritar, conseguiu, desta vez conseguiu, um grito de socorro desesperado saiu-lhe da boca, mas o único auxílio que teve foi o punho de Pedro no seu rosto, mais pesado ainda que anteriormente… a dor desta vez foi pungente, nenhuma das prévias chegavam perto desta, quase sentindo o maxilar a ser estilhaçado… Pedro ria enquanto o senhor-teia-de-aranha passeava a lâmina pelos seios de Amy…

O metal tocou-lhe suavemente no mamilo, frio em quente, a lua encontrava-se agora totalmente escondida (vergonha do crime noturno, quem sabe) a chuva aumentou (serão os anjos a chorar?) e o vento… esse agora corria (os demónios da floresta andam à solta).

A faca desceu, o percurso que tinha feito até aos seios de Amy, foi agora executado na ordem inversa, até às suas calças.

— Que tesouros estão escondidos aqui?

Amy não conseguia falar, o último murro tinha sido potente, neste momento apenas chorava de terror, as lágrimas percorriam-lhe o rosto, e eram dissipadas pelas gotas de chuva.

Sentiu o botão das calças a ser assassinado pela ponta da lâmina… sentiu os outros três a morrerem também… fechou os olhos, não podia mais, não podia assistir… tentou alhear-se na sua mente, fugir dali na única escapatória possível, o pensamento…

Sentiu ainda as calças a serem violentamente puxadas para baixo, quase que arrancadas (boneca de trapos) e sentiu a ponta da lâmina a percorrer a sua perna… sentiu um golpe lá, e o quente do sangue a ser misturado com o frio da chuva… depois uma língua a chupar o seu sangue, a navegar na sua perna até bem perto da virilha… a sua roupa interior a ser arrancada… puxada com mais atrocidade ainda que as calças.

— Agora, começa o jogo… da pequena mosca e duas aranhas…

Pedro soltou uma risada mais alta, mais fria ainda… sentiu as mãos do senhor-teia-de-aranha, e sentiu-se quase a vomitar nesse instante… a desmaiar com o medo…

Então as mãos de Pedro afrouxaram, escutou um grito de surpresa do senhor-teia-de-aranha, ouviu um baque como se alguém tivesse dado uma bastonada num muro… pela primeira vez estava liberta.

Deixou-se cair na lama do chão, na infâmia que a noite tinha criado, no lodo que as lágrimas dos anjos houveram concebido…

No momento, a coragem para abrir os olhos era inexistente… percecionou o som de alguém a correr, quatro pés, não dois, mas quatro, e novamente o som do baque, os gritos do senhor-teia-de-aranha, ouviu o que parecia ser uma briga, mas não tinha coragem de se mexer, de abrir os olhos.

A chuva acalmou, o vento abrandou… ao longe, nova altercação de gatos… aqui, alguma batalha existiu… percebeu o toque de umas mãos no seu corpo, “não, voltaram, foi a minha imaginação, a briga foi apenas um devaneio meu” — e sentiu-se a ser erguida por dois braços, não como tinha sido até então, e sim de forma ternurenta, contudo, a coragem de abrir os olhos, não existia, Amy temia o pior…

Algo lhe cobriu o corpo nu… ouviu uma voz… não gelada como as anteriores.

— Agora estás bem… — as lágrimas voltaram mais intensamente, afinal sempre existia salvação na noite.

— Onde moras? Precisas de hospital? Precisas de fazer queixa? Onde te posso levar? Levo-te ao colo — Amy sentiu vontade de abraçar este ser, fosse quem fosse, ainda com olhos fechados, envolveu o pescoço dele, abraçou-o.

— Leva-me, leva-me para casa… amanha faço o resto, agora preciso descansar, leva-me para casa por favor.

O estranho começou a mover-se, — Sei onde vives, acho que sei… — caminhou com ela no seu colo pela noite.

A lua voltou (sempre tinha sido por vergonha que se houvera escondido) o vento, esse parou de vez (os demónios esta noite morreram) Amy adormeceu no colo do seu salvador… do seu anjo.


Continua... 

 

publicado na valletibooks., segue po link em baixo. 

CONTOS DE UM FUTURO DISTANTE Nº 3 — 01/03/2022

 

Alessandra Valle conta um caso de um crime por ciúmes. Envolva-se nessa trama e descubra o seu final. Diretamente de Portugal, Carlos Palmito nos brinda com um conto escrito em 2005 e foi re-escrito agora, especialmente para o nosso blog. O conto de Carlos será publicado em 3 partes. E eu, Luiz Primati, trago um conto de 2018, publicado inicialmente no Facebook em partes e depois entrou para o livro: "Velhas Histórias Urbanas" que foi baseado num fato e será publicado em 2 partes. 

 

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