Adeus, novo amigo de longa data
Ao chegar perto da esplanada fui
invadido por aromas extremamente diversos, de entre eles o que mais se
destacava era o das torradas acabadas de confecionar.
Olhei à
volta atentamente, e vi-o na mesa ao fundo, a mais isolada de todas, lá
estava Júlio, a observar tudo e todos enquanto que ao mesmo tempo me
acenava para me juntar a ele.
Dirigi-me para lá passando de
relance os olhos pelo relógio. Quinze e vinte. Tínhamos combinado
encontrarmo-nos apenas às quinze e trinta, contudo já ele ali estava,
sentado, bebendo água e com um cigarro em repouso no cinzeiro.
Sentei-me, sorri num cumprimento:
— Olá Júlio, faz tempo que não nos sentávamos assim, não?
Ele pousou em mim o seu gélido olhar azul-céu, sempre me arrepiou aquele olhar:
— De facto, nem me recordo se alguma vez tomámos um café juntos, mas
acedi ao teu pedido, Carlos. Acho que precisamos mesmo falar.
Passou uma empregada à qual pedi dois cafés, após anotar, ela partiu
para a obscuridade do bar em busca do requerido, deixando a pairar,
perdido no espaço e no tempo a memória da sua silhueta e um odor
silvestre, presumo que tenha sido a sua escolha de fragrância artificial
nesta manhã, embora agora a artificialidade estivesse conspurcada com
suor, tabaco e álcool.
Voltei a atenção para o meu recente amigo
de longa data, notei, sem conseguir evitar um sorriso, que o foco dele
estava disperso na esplanada, nas gentes e objetos à volta, e ao mesmo
tempo em mim, Júlio tinha essa capacidade, assimilar tudo, guardar tudo…
— Sabes ao que venho? A razão do telefonema?
— Claro que sei, Carlos. “Retorquiu ele em tom suave.” — Queres saber mais de mim, não é?
Tentei responder, mas fui silenciado pelo seu gesto a pedir calma, e
por um sorriso nos finos lábios deste adolescente na minha frente, que
nunca sorria… é assustador um sorriso bocal quando os olhos permanecem
frios!
— Mas a pessoa ideal para te falar de mim reside nessa
coisinha que tens entre as duas orelhas, afinal, é lá que eu habito, não
é? Repara, ainda
umas linhas atrás disseste eu ter uns olhos azuis, e bem mais perto deste uma vaga noção da minha idade, dos meus lábios…
Eu estava atónito, sabia que Júlio era atento, metódico, calculista,
mas nunca imaginei que ele falasse assim tão abertamente, junto com o
sorriso, esta era uma novidade para mim.
O perfume silvestre
regressou, a ser libertado da esbelta silhueta que nos trazia dois
cafés, na outra ponta da esplanada estava um cão que corria em devaneio
com duas crianças entre as mesas, no céu as nuvens continuavam calmas,
movendo-se preguiçosamente… e das árvores perto vinha o som de pássaros.
— E agora queres saber um episódio de mim, certo? Já tens desenhado
nestas parcas linhas uma característica, um aspeto de personalidade,
falta-te a vivência.
Nem tentei falar, acenei simplesmente que
sim, para não lhe interromper o discurso. Estava fascinado com a
tranquilidade do meu recente amigo de longa data.
— Dou-te duas, não uma, mas duas, pelo preço de uma, que dizes?
Piadas? Outra novidade, desde quando Júlio fazia piadas? Fiz um ligeiro gesto com a mão a pedir-lhe para continuar.
— Episódio numero um, numa tarde solarenga, eu e uns amigos decidimos
ir mandar uns mergulhos no Oceano, nus… sempre adorei nadar desnudo,
liberto de tudo o que me prende ao artificio, ali é simplesmente
natureza. Deixámos a roupa no areal e lá fomos, gritámos, rimos,
mergulhámos, era a felicidade estampada em cada um de nós. E quando
estávamos já estafados regressámos para constatar que alguém nos tinha
roubado a roupa. Após o choque inicial, desatámos a rir que nem uns
perdidos, gargalhadas capazes de provocar avalanches nas terras de neve.
Regressámos assim para casa, nus, com todo o mundo a olhar e apontar,
mas cada um de nós sem sequer querer saber disso, não ligávamos.
Estávamos felizes.
Ele parou momentaneamente, e sei que era
verdade o que dizia, pois os seus olhos neste momento sorriam. Vi-o
pegar no cigarro apagado, brincar com ele entre os dedos, e o olhar
voltar a ficar frio, sempre foi estranho saber a velocidade com que os
sentimentos mudavam nele.
— Episódio numero dois, uma doença
afetou a aldeia, bem, o que parecia ser uma aldeia. Essa doença primeiro
matou os anciãos, as manchas vermelhas espalhadas no corpo, a febre… e a
morte. Depois começou a matar os mais novos, até que finalmente nem as
crianças poupou… exceto eu, fui poupado… Dádiva ou maldição? Ainda hoje
não sei, sei que nesse dia, no dia que o ultimo herói tombou, acendi uma
fogueira, e nela depositei os corpos todos… Crianças, velhos, irmãos,
amigos e desconhecidos, todos numa fogueira… foi a única forma que
pensei de controlar a doença… tapei o nariz e boca com um lenço, aquele
negro que me costuma acompanhar, e sentei-me, tentando ignorar o cheiro a
carne queimada, e o som do crepitar. Nesse dia apesar de não ter
morrido, morri.
Era realmente sério, sabia ser quando vi uma
cristalina lágrima percorrer o seu rosto moreno e cair em esquecimento
no colo… Júlio nunca chorava na presença de alguém, e, contudo, aqui
estava ele a expelir sal da sua alma.
— Adeus mestre das
marionetas, este nosso café terminou, e eu vou indo… sei que tens muito
que refletir, mas um dia vais ter que cortar os meus fios, e deixar-me
fluir como uma marioneta com alma.
Chamei a empregada, desviando
momentaneamente a atenção de Júlio, queria pagar para ir. Quando olhei
para a minha frente, vi que ele se tinha desvanecido, e na minha frente
tinha apenas um café ainda por beber, um livro em branco… e um cigarro a
repousar no cinzeiro.
Adeus, novo amigo de longa data. Até já.

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