São oito e meia?

O quarto está na penumbra, são apenas sete da manhã, na rua ouvem-se os primeiros carros, e algumas vozes ainda ensonadas de pessoas ansiosas por um simples café.
Do nada algo te acorda, pequenos passos em corrida, um salto para a cama, sentes a dor abdominal quando quatro patas te caiem no estômago. Abres os olhos repentinamente num esgar de dor!
— Que porra Luri!
— Toca a levantar, — reclamou ela! —o sol está a nascer não tarda e a minha gamela está vazia.
— Fazes ideia que horas são? — conseguiste  balbuciar, enquanto cobrias a cabeça com a coberta.
— Sei sim, são horas de me dares comida! — reclamou a gata, sentada a olhar para ti.
Como nenhum gesto fizeste para te levantares, ela iniciou uma nova corrida, indo até à cozinha e saltando de novo, atingindo-te em cheio nas partes baixas. Uma dor lancinante percorre todo o teu ser. Irritado olhas para a gata, que está entretida a lamber a pata traseira esquerda, sem sequer se dignar a olhar para ti. Inspiras fundo tentando acalmar tanto a dor física como a irritação na mente.
— Fazemos assim Luri, vais até à cozinha, está lá uma gamela com ração seca, se estiveres com fome come um pouco e aguenta até às oito e meia, aí prometo que a primeira coisa que eu faço é dar-te comida húmida.
Ela parou subitamente as lambidelas, e olhou confusa para ti.
— Oito e meia?
— Sim, oito e meia.
— E quando é isso? Como sei que já são oito e meia?
— Vês aquela coisa ali? — Dizes pausadamente, enquanto apontas para o telemóvel na mesinha de cabeceira. — Quando aquilo começar a fazer barulho são oito e meia.
Ela desviou o olhar para lá, numa tentativa de memorizar o objeto, levanta-se e sai da cama em direção à cozinha lançando-te um olhar de indignção.
— Merda! — Reclamas tu enquanto poisas de novo a cabeça na almofada. — Nem sei porque raios tenho um despertador, se a gata é melhor que mil. Só tenho que descobrir como lhe ajustar as horas. — Sorris pensando num botão de ajuste algures entre as orelhas negras do bicho felpudo. Minutos depois a respiração volta a ficar pausada e adormeces.
— Já são oito e meia?
— Fodasse Luri, as oito e meia são quando aquela merda começar a fazer barulho!

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