Inocência...
— Lança, vá, atira essa merda.
Gustavo olhava pasmo, na sua vida nunca tinha visto Catarina a usar palavrões.
Ela ria, e contemplava a ria que iria desaguar algures, nem tinha a certeza de ser uma ria, isto é… tinha água, tinha erva nas imediações, poderia ser apenas uma ribeira, um riacho, a saliva de Gaia, mas enfim, hoje ela ria na ria.
— Vá Gustavo, mexe esse cu gordo e atira o calhau, quero ver se consegues tantos ressaltos como eu.
O rapaz, catraio ainda, mirou a água e a pedra que tinha nas mãos, atirou-a ao ar para lhe tomar o peso, e arremessou-a para trás.
— Esta não, é muito pesada, espera.
Vasculhou as margens em busca de um seixo mais leve, liso, algo que flutuasse como uma pena ao vento, ela era a sua namorada desde a primeira classe, e agora, nos seus oito anos mal feitos não queria ficar envergonhado perante a menina de trancinhas negras.
Finalmente encontrou-a, era perfeita, tinha o tamanho exato do seu carro de policia que estava junto aos soldados da paz, como os adorava este rapaz.
Observou Catarina, que estava ao sol a bronzear mais ainda a sua cara sarapintada de sardas.
— Esta é perfeita Catarina, queres ver? Vou fazer um milhão de ressaltos, vai daqui até à lua.
Ela pulou de alegria, tinha fé no seu amigo, o eterno parceiro de brincadeiras, aquele que lhe mostrou que a vida é uma festa, nem que seja uma que apenas as crianças vejam.
— Atira, Gustavo, atira isso agora, eu conto.
Ele puxou o braço atrás, o mesmo braço com que a empurrava no baloiço que está no jardim das fontes, fechou os olhos e lançou a pedra.
A menina começou a sua contagem.
— Um, dois, três, quatro, olha, um passarinho azul. Sete, oito, nove, — Rodolfo, o cão que levaram com eles latiu, lá atrás, ela desviou o olhar, contando mentalmente o que não via. — dez, onze. Rodolfo, vai apanhar a bola. — O cão partiu, e a pedra já não se via mais. — oh, já não vejo os salpicos.
Gustavo encolheu os ombros, piscou o olho, enquanto desviava o cabelo de palha da testa.
— Esta, Catarina, à velocidade que ia, já está de certeza com os golfinhos, no mar.

Comentários
Enviar um comentário