“… feminino, totalmente dilacerado. As autoridades acreditam que tenha sido um ataque de urso, contudo não avançam com mais detalhes. Contínua a busca sobre a identidade da adolescente. A descrição segue acima, tal como um retrato robô de como seria. Se alguém a conhecer entre em contacto com as autoridades locais.” * * * — Jéssica, vamos. Ela estava atónita, os olhos percorriam o corredor; do teto caiam pingos de água gelada, condensação da eternidade notívaga, a noite no inferno por vezes tem essa qualidade, congelar o plano absoluto dos seres vivos. Abrandou na primeira curva, queria manter-se perto do tutor, o seu mestre de anjo, mas não conseguia, as pernas afrouxaram, até que parou por completo. Observou tudo a seu redor, como poderia chover dentro de uma caverna, no coração da mais frágil das crianças? Nas paredes cresciam rosas, mais uma impossibilidade existencial, subiam ao teto e desapareciam pelas paredes, fundindo-se com a rocha, umas brancas como a candura, outras n...
Através da janela junto à asa ele vislumbrava e deleitava-se com tudo o que surgia perante os seus olhos, parecia um sonho como aqueles que assolavam a sua infância, onde caía sem parar, embora desta vez flutuasse. O rio de um azul incomparável, atravessado por uma ponte e todos aqueles carreiros de formigas que se dividiam por entre as casas, pareciam pequenos blocos de lego a esta distância. Os carros e camiões sem parar, seres minúsculos, atarefados a colocar Lisboa em funcionamento. Todas as peças são importantes neste quadro da vida. No final da ponte conseguia distinguir o guardião de braços abertos, Rei soberano na eternidade do momento. Ao longe, na vastidão, ínfimos fiapos de nuvens moviam-se preguiçosamente, embalados pela brisa que ele quase jurava passar pelo seu corpo e acariciar a sua pele, mesmo estando vestido com o melhor dos fatos. Ao voltar de novo a atenção para baixo, para o mundo que conhecia, via os verdes e o castelo, as colinas e o jard...
Arco de luz, faúlhas incandescentes à distância; na colina, a antiga fábrica de papel arde, segundos antes desta libertação amotinada do fogo, existiu um estrondo que ecoou por toda a cidade. Os demónios correm pela cidade, o espelho que nos separa da sua moradia estilhaçou-se, urra o vento, berram os morcegos, gritam as sirenes do carro-patrulha número cinco, seis, um. Jéssica encolhe-se no banco de pendura, a olhar para o seu mestre, o tutor numa hierarquia gerida pelos anos de serviço, este guia a viatura num chiar de pneus, borracha, entra na avenida principal cortando caminho aqueles que precisam de ser protegidos, mesmo quando o não sabem. — Samuel? — Pega no intercomunicador, pergunta à central o que se passa — abrandou um pouco a velocidade para deixar um camião cisterna passar. — Parece a porra de um ataque nuclear. A criatura de olhos negros demorou uns segundos até conseguir perceber o que era o intercomunicador, a adrenalina corria por todo o seu corpo, em conjunto c...
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