Êxodo

 


Tomo 1 — Peste


O dia raiou como todos os outros, o sol incendiou os céus, a escuridão trocou de lugar com a luz… nas florestas do tempo os pássaros entoavam doces melodias, e nas cidades os veículos bradavam as suas enfurecedoras buzinadelas.

Era simplesmente mais um dia no paraíso.

Os noticiários do mundo falavam de derrotas e vitórias na política, no desporto, nas vidas de pessoas despreocupadas, falavam da racionalidade e irracionalidade da população em geral, um gato bom e um polícia mau, um polícia bom e um gato mau… banalidades que já ninguém escutava neste universo de marionetas.

Nas montanhas, isolada em solidão e neve existiu uma aldeia que não acordou, o mundo demorou um mês a descobrir a ausência destes cinquenta seres… Foi acionado um alarme, colocados perímetros e investigada a origem do fim da meia centena de almas que ali se perderam.

Nem uma semana passou, e mais quinze localidades espalhadas de forma aleatória no globo esqueceram-se de despertar.

As notícias principiaram a focar-se na epidemia, a peste do sono como falavam, as pessoas que pereciam no seu adormecer.

A pouco e pouco o pânico entranhou-se no âmago dos homens.

Um ano passou e começaram a tombar cidades completas, da noite para o dia.


Tomo 2 — Guerra


Com o medo, regiões inteiras isolaram-se, todas se tornaram ilhas inacessíveis, que recebiam os seus visitantes com balas e petardos.

Surgiram as primeiras teorias, um vírus secretamente criado em laboratório para dizimar metade da população, ou para um determinado país conquistar o mundo, teorias de nações que tinham antídotos criados, e nunca eram as mesmas, umas vezes umas, outras vezes outras, sempre em teorias com base em nenhum fundamento.

No meio destes fundamentalismos e falsas moralidades começaram as movimentações hostis, fantoches em forma de soldados colocados nas fronteiras.

Mas a peste passava por eles, invisível, como o vento nos dourados cabelos de uma donzela, para ir pernoitar nas cidades que jamais veriam uma nova aurora.

Na sequência destes acontecimentos surgiram milícias, com o propósito de defender as suas populações de estranhos, pois eram os forasteiros que traziam o mal do sono, isto segundo teorias… germinaram também vigaristas, que vendiam uma inexistente cura por preços exorbitantes, apesar destes intrujões terem, regra geral, vida curta.

Aconteceu então o impensável, um avião civil foi abatido em pleno ar, acusações foram trocadas, vozes e ódio elevaram-se, antigas disputas reergueram-se, e foram então enviados os soldados, foi a gota de água.

Ao longe, um general premiu um botão, e o absurdo tornou-se realidade, foi o prelúdio da guerra nuclear.

Continente contra continente, nação contra nação, cidade contra cidade e irmão contra irmão.

Uma década inteira de chacina, o solo foi regado pelo sangue de inocentes, o ar tornou-se asfixiante, perante a radiação.

Durante estes dez anos ninguém sequer se apercebeu que a epidemia tinha desaparecido, já não era o sono que matava, mas sim o homem na sua mais animalesca cólera… sabem, a violência está na cadeia genética humana.



Tomo 3 — Fome


Os solos tornaram-se inférteis, os peixes afogaram-se no oceano e a caça desapareceu das vastas planícies radioativas deste novo mundo.

Foi tentada agricultura, mas tudo o que nascia eram cinzas e memórias de um tempo remoto. Os animais na pecuária morriam de doenças inenarráveis, nasciam já fracos, pouco duravam… eram escolhidos os sãos, ou os que aparentavam não estar doentes, mas estes representavam apenas uma gota de água na imensidade de uma sociedade voraz e sedenta de alimento.

Rapidamente as prateleiras nos supermercados ficaram vazias, subsistindo apenas pó e recordações do antes da peste do sono, quase duas décadas atrás.

Quem conseguia produzir alimento era constantemente assaltado, tal como quem vendia, os fazendeiros assassinados, suas mulheres violentadas, seus filhos atirados para dentro dos poços de águas contaminadas.

A fome atingiu então continentes outrora abastados, a moeda passou a ser lixo, os alimentos ouro e as águas purificadas diamantes.

Nas cidades a comida começou a ser racionada, e surgiram boatos de canibalismo, venda de carne humana no mercado negro.



Tomo 4 — Morte


Mais uma década passou, poucos eram os homens que restavam, a civilização sucumbiu perante a sua própria violência.

Doenças presumivelmente extintas, ou embaladas a vácuo, em laboratórios esquecidos, voltaram.

Para onde quer que se encarasse, tudo era pó e cadáveres, florestas que se transmutaram para desertos, rios sem vida e cidades sem buzinões.

Claro que ainda existiam pequenos focos de população, mas esses focos nem se podiam apelidar de sociedades, eram a barbárie na sua exponencia máxima.

O único sentimento que sobrou foi o medo e o ódio.

Tornaram-se inférteis os homens e mulheres, tal como o solo e as águas.

Todos tombavam nas ruas da amargura, morriam simplesmente e sobriamente ali ficavam, já não existiam sequer aqueles que enterravam os corpos… O planeta terra transformou-se num cemitério a céu aberto, este foi o ato final da peste do sono, que há muito tinha partido, ficando apenas nos bastidores a observar o desfecho da sua obra.

Esta foi a forma que a natureza encontrou para erradicar o parasita que em si vivia, de voltar a equilibrar a balança entre a vida e a morte.



Êxodo


Aquando dos acontecimentos, desde o premir do botão, foi iniciado um projeto secreto, homens e mulheres raptados das suas casas e levados para instalações militares escondidas do olhar humano, aqui viviam lideres espirituais, cientistas, mecânicos, tripulantes de naves.

O projeto Noé nasceu assim, levando com ele pessoas aleatórias.

Todas estas gentes eram selecionadas consoante numero de contribuinte, raptadas e levadas para se encobrir a arca… as arcas.

Levaram-se animais e plantas, levou-se o resto da humanidade, enquanto as sobras ficaram a apodrecer no sol nuclear.

Num dos dias, quando tudo estava perdido, levantaram voo as arcas de Noé, o que sobrou da civilização, com elas foi fauna, flora e o coração humano…

Perderam-se no espaço por prolongados anos, décadas… os nascimentos eram controlados, para que não se excedesse o número máximo de viajantes.

Até que, um dia, enviaram uma nave de reconhecimento à terra, ver o que sobrou, como ficou.

Quem veio já não era nenhum dos originais, mas sim descendentes deles, e esta história, esta crónica… será contada noutra voz, por outra pessoa… por uma pessoa que muito estimo… por ti…

Valleti Books abre um novo espaço para os autores e dessa vez é para os contistas. Se você escreve contos, peça para participar desse novo caderno. Aqui você pode nos enviar um mini-conto, ou um conto maior para publicarmos em partes. E para estrear esse novo blog, diretamente de Portugal, Carlos Palmito. ÊXODO traz a imagem apocalítica do mundo em que vivemos. Quando li, tive a impressão de ser algo de um futuro bem distante, enquanto lembrava uma situação atual. Ficção ou realidade? Distante ou atual? Bem, leia e tire as suas conclusões.

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