De Anjos e Fadas (Capitulo 2)

 

CAPÍTULO 2 — O GUARDIÃO DE FADAS


Acordou na manhã seguinte, estava na cama, pensou ter sido um sonho, mas as dores do corpo diziam-lhe que não, contudo, ela estava na sua própria cama, vestida com um pijama e debaixo das mantas.

Olhou em volta… perto da janela, sentado numa cadeira que costumava estar na sala encontrava-se um homem, estranhamente, um homem que Amy todas as noites via, alguém que ela amava em silêncio, alguém a quem nunca conseguiu dizer uma palavra, nunca soube porquê, medo talvez… contudo, amava-o em segredo, era por ele que todas as noites ela entrava naquele bar. Tentou levantar-se.

— Não, ainda estás fraca, deixa-te ficar mais um pouco, dorme… ficarei aqui — fechou de novo os olhos… não sabia como, mas pressentia que ao acordar o seu anjo ainda estaria ali!

Adormeceu, o estranho que ela amava; o anjo da noite ficou junto da janela, tal como lá tinha estado a noite inteira.

Admirava o rosto sereno de Amy, enquanto ela repousava, via a sua respiração pausada, e recordava, revivia ainda tudo da noite.

Todos os dias a contemplava, amava-a na solidão do que a sua vida era, contudo, nessa noite, algo mais lhe despertou a atenção… duas pessoas noutra ponta que não deixavam de olhar para Amy.

Ela abandonou o bar, um deles saiu quase no mesmo instante, o outro, um minuto depois.

O anjo, deu mais cinco minutos, e penetrou ele também na penumbra da noite.

Teve que procurar o caminho que ela fazia, e encontrá-la, sabia que os estranhos não tinham boa coisa em mente, sabia onde era a casa dela, uma vez durante o dia ao passar por lá tinha-a visto sair, a primeira vez que a vislumbrou à luz do sol, fora do ambiente do bar, fora do fumo e álcool…

“Ainda és mais bela iluminada pelo sol, do que pelos néones notívagos da cidade.” — pensou, mas nada lhe disse, nunca dizia… amava-a apenas em silêncio.

Após sair do mesmo bar, percorreu mentalmente o percurso que Amy poderia fazer até casa, vestiu o seu blusão negro a tapar-lhe a camisola cinza, e começou a andar nessa direção em passos rápidos.

Não lhe saía da cabeça a recordação dos dois estranhos, como olhavam para ela, o sorriso frio, o apontar, ele amava-a, estes não… nada de bom estava para vir mesmo.

Caminhou, passou por alguns táxis, “será que foste numa destas coisas para casa?” — sabia que não, já a tinha visto também de noite fora do bar, contudo jamais a tinha visto entrar em qualquer uma destas carruagens amarelas.

Transpôs várias ruas, contornou o jardim, julgou que ela não teria coragem de entrar nele pela noite, começou a chover; cortou por uma casa em cujo telhado dois gatos brigavam, um quase que lhe saltou em cima… ele pulou, desviou-se.

Inesperadamente ouviu um grito “É ela, eles apanharam-na” — centrou a atenção no vento para tentar perceber de onde viria… “jardim, pensei que não entrarias nele pela noite, sim, é mais perto para a tua casa, mas nunca achei que passasses nele pela calada da noite” — correu então em direção à residência das flores.

Ao entrar abrandou o passo, parou, tentando assim absorver mais um som, ouviu-o, uma risada alta, eles estavam perto… olhou em volta, um ramo de uma árvore “perfeito, eles pareciam fortes, um consigo derrubar, os dois duvido” — e começou a andar de forma lenta, queria correr, queria correr para sua amada, para quem amava desde o primeiro olhar… não podia, eles poderiam ouvi-lo e poderiam matá-la, nunca se perdoaria caso tal acontecesse.

Passou por entre árvores, ouviu a voz de um dos homens, e a gargalhada do outro, sentiu um ódio profundo invadir-lhe a mente…

Marchou um pouco mais, no local onde se encontrava via a silhueta de um deles, de costas… “perfeito, assim conto com a surpresa” — o riso do homem causava-lhe aversão…

Foi indo passo ante passo até estar bem próximo do desconhecido, levantou a sua arma e desferiu um golpe, um único golpe com toda a força dos seus braços, certeiro, quase letal, na nuca deste estranho… o ramo partiu-se em dois, e o homem tombou no rio de lama que as ruas deste jardim se tinham tornado.

O outro parou, Amy tombou inerte no chão, enquanto o estranho gritava com surpresa e raiva estampadas nos olhos, tentou fugir, mas o anjo não o permitiu, perseguiu-o, atirou toda a força do seu corpo na direção desse imundo agressor, estatelaram-se no chão, e só aí, pela primeira vez viu o objeto cortante do homem de olhos negros.

Hesitou, mas era tarde para recuar… o estranho tentou desferir um golpe com a sua faca, ele defendeu com o braço, lembrava-se ainda vagamente das aulas que tinha tido, lembrou-se de lhe terem dito que numa luta onde existam facas, se tivesse que se defender, utilizasse sempre o braço, nunca outra parte do corpo, e foi o que fez, defendeu com o braço esquerdo, usando o direito para desferir um golpe na nuca deste também.

Perante a violência do golpe, o senhor-desperdício-de-homem perdeu a faca, caiu por lama, e tentou fugir novamente. “Parece que o lobo sem dentes se torna medroso” — o anjo não lhe permitiu a fuga, atirou-o para rio de lama e descarregou nele toda a fúria contida.

— Como ousaram tocar numa fada? — berrou, espancando o homem, deixando-o num rio de lodo e sangue.

Levantou-se e voltou para trás, até Amy, “sempre te amei, sabes?” ergueu-a com os seus braços, sentiu uma pequena dor no esquerdo, que ignorou, teria que aguentar… cobriu a nudez dela com o blusão, perguntou-lhe para onde queria ir… ela respondeu casa e desmaiou nos seus braços.

Transportou-a, sentia dores cada vez mais agonizantes no braço, “deve ter sido profundo este golpe” — e caminhou, dois quarteirões apenas e lá estava o lar de uma fada, amparou-a apenas com um dos braços, enquanto que com o outro conseguiu encontrar as chaves, nos bolsos das calças dela, que ele tinha trazido.

Num bolso traseiro estava ainda a carteira, retirou-a.

Pela primeira vez presenciou o nome da sua amada, olhou para todas as campainhas do prédio, encontrou numa esse nome… “segundo andar” — subiu as escadas, abriu a porta… um hall de entrada, algumas rosas-brancas; como ele sempre imaginara que seria a casa de uma fada… caminhou em busca do quarto, queria que ela repousasse, queria providenciar-lhe conforto numa noite que se tinha apresentado dura.

Encontrou-o, levou-a até lá e deitou-a na cama enquanto olhava em volta a tentar perceber onde seria a casa de banho, “não a posso deitar assim…” — queria dar-lhe banho, limpar da sua pele todos os vestígios da noite, todos os vestígios dos senhores aranhas.

Regressou ao hall, ao observar em volta apercebeu-se de uma porta semiaberta, “é ali” entrou, ligou a água quente com que começou a encher a banheira, despiu a camisola, ficando em tronco nu.

Lavou o golpe do braço “está pior que pensei!” — enquanto a banheira ia enchendo… não podia meter espuma, faria mal aos golpes da fada.

Numa das prateleiras estava gaze, na outra, álcool, desinfetou o braço que enfaixou com a ligadura… nesse momento a banheira estava praticamente cheia, desligou a água e foi até ao quarto.

Pegou naquela que sempre amou, levou-a docemente em direção ao banho para a limpar da lama e baba de aranha que ela tinha na pele.

Descalçou-lhe os sapatos, retirou-lhe os restos mortais da roupa, pousou-a na banheira, com a esponja foi purificando todas as partes do corpo da sua amada, meiga e carinhosamente, contemplando-lhe a nudez do corpo, amando-a como amava, amando mais ainda “és linda minha fada” — uma lágrima brotou-lhe do olhar…

Ligou o chuveiro, água morna, passou com ele sobre a cabeça daquela fada, limpando-a assim, lavando toda a pele, que ia perdendo desse modo a lama e o odor de estranhos, tornando-se clara, enquanto o lodo escorria pelo ralo.

Sentiu-se envergonhado ao contemplar a beleza nua da sua amada, mas nada podia fazer, tinha que cuidar dela…

Retirou-a de lá, limpou-a, tendo extremo cuidado nos golpes que ela tinha nas pernas, e um entra o peito e o abdómen… desinfetou-os, aplicou gaze na totalidade destas feridas, sabendo na perfeição que ela tinha uma bem fundo, cravada como veneno de aranha, na alma, sabendo que esta era a que maior dificuldade iria ter em cicatrizar.

Transportou-a nua, de volta para o quarto… sob a almofada encontrou um pijama, vestiu-a delicadamente, com cuidado, devido aos golpes, não a pretendia magoar.

Abriu a cama, deitou-a… beijou-lhe a testa, pela primeira vez os seus lábios tiveram contacto com a pele da sua amada, e deixou-a repousar.

Perscrutou a divisão em busca de algo para se sentar, não podia sair, tinha que cuidar dela.

Na sala encontrou uma cadeira que trouxe, colocou-a perto da janela, abriu-a um pouco, deixando desse modo o ar da noite mantê-lo acordado… queria estar desperto quando ela acordasse.

Levantou-se uma vez mais, precisava de algo para beber, qualquer coisa fresca, na cozinha encontrou uma garrafa de água, trouxe-a para seu ponto do vigia.

A dor no braço, apesar de desinfetado, ainda era lacerante, mas era bom que assim fosse, a dor ajudava a que ele não adormecesse.

Desligou a luz, deixando que o quarto fosse iluminado apenas por um candeeiro que se encontrava no exterior, conferindo nesse ato um ar místico à divisão… afinal era o quarto de uma fada, era o quarto da sua amada, tinha que ser místico como as florestas num conto de fadas.

Recostou-se na sua cadeira, ela seria o seu trono esta noite… a fragrância de rosas e outras flores inundavam-lhe os sentidos.

Ouviu-a gemer, olhou com atenção, nada de preocupante, apenas um sonho… deixou-a sonhar, ela precisava.

Pouco depois, novo gemido, mas este de medo, levantou-se da cadeira e foi para bem perto dela “não, não é um sonho, é um pesadelo” — segurou-lhe a mão e sussurrou no seu ouvido:

— Calma, meu amor, eu estou aqui, não partirei, nenhum vampiro da noite morderá o teu pescoço hoje, nem nunca… jamais! Estou aqui.

Sorriu, nunca se imaginou a pronunciar palavras ternas, em tom de confidência à pessoa que amava… sempre pensou estar à distância, amar e nunca ouvir, amar e nunca conseguir sequer se aproximar.

Ela acalmou, ele voltou para o seu trono, a cadeira junto à janela.

O ar exterior tornou-se mais frio e entrava por ela, um arrepio percorreu-lhe a pele, todos os seus poros levantaram-se em nome do pai vento, não podia ficar assim, em tronco nu.

Buscou a sua camisola, embora manchada de sangue em algumas partes, teria que servir, teria que o proteger do pai vento e da mãe frio, não podia adoecer, não se podia constipar, não agora.

E eis que um novo gemido ressoou na calmaria notívaga, a respiração de Amy aumentou o compasso, ele conhecia o sintoma; um pesadelo, mais um, subitamente um grito pronunciado pela garganta de Amy.

— Não, não… parem, não…

Sentiu-a a agitar-se, a dar voltas na cama, levantou-se de imediato, segurou-a… sentiu as unhas dela cravarem-se no seu rosto e ombros.

— Não, não, não, soltem-me… anjo… — sentiu sangue na cara… as unhas de fada são perigosas!

— Estou aqui, minha fada, estou aqui, calma… disse-te, nenhum vampiro e muito menos pequenas aranhas… te tocarão, enquanto eu estiver jamais te tocarão.

De novo a calma, sentiu-lhe as mãos a deixarem de resistir… os olhos dela reviravam por debaixo das pálpebras, ainda se encontrava lá, perdida naquele jardim que fazia lembrar uma pequena floresta.

Puxou-a para si e abraçou-a, num abraço quente e protetor, o aroma da pele dele a invadiu-lhe o olfato, sentiu-se embriagar por ele.

— Calma… — sussurrou, os olhos acalmaram, pararam, a respiração abrandou até ao habitual compasso torácico, recostou-a e puxou-lhe os cobertores para cima.

Regressou à cadeira, mirando o exterior… uma imensa lua cheia e um candeeiro eram tudo o que iluminava esta rua fantasmagórica “os fantasmas da noite percorrem estes becos lamacentos” — sentou-se e fixou o olhar em Amy… ficou ali… à espera de mais um grito na noite, mais um gemido… que não tardou a surgir.

— NÃO… não quero, não quero, soltem-me, não sou uma mosca, não vêm que não sou uma mosca? — levantou-se de novo… a dor no braço tinha finalmente acalmado… a dor na alma dela parecia agravar-se a cada segundo no sonho.

Viu-a contorcer-se violentamente, atacando o ar, agredindo-se a si… segurou-lhe os braços, não podia permitir que ela se magoasse.

Beijou-lhe o rosto, a vontade era beijar os lábios de veludo dela, mas contentou-se com a face, puxou-a para si, abraçou-a, foi retribuído.

— Obrigado, príncipe da noite, obrigado anjo noturno… obrigado…

Embalou-a nos seus braços, acalentou-a em si, um novo beijo, bem perto dos lábios, era difícil resistir ao desejo… sussurrou-lhe então ao ouvido:

— Chama-me, chama o teu príncipe da noite, o anjo noturno, chama-me se mais homens te perseguirem nos recantos dos sonhos, não será aí que se esconderão de. Chama-me, libertarei a alma, e ela irá lá, proteger-te, no mundo dos sonhos… chama bem alto, grita por mim.

As palavras nutriram o efeito desejado, ela acalmou uma outra vez… ele ficou ainda a balança-la por alguns minutos, acariciando-lhe a face, o rosto belo e puro, que ele tanto amava, desde o primeiro dia que amava todos os contornos dela, desde o primeiro dia que a amava.

Deixou-a a descansar no leito e voltou à cadeira… “Esta noite será neste trono que te protejo!” — esteve ainda na expectativa de mais gritos e lamentos, mas tal não sucedeu, passou então todo o resto da noite a contemplar a beleza da sua fada, os traços do seu rosto, agora sereno, enquanto ela dormia.

Em nada se comparava com o que ele viu quando ela tombou no pantanal do jardim, nada tinha que ver com os olhos assustados, nem a dor ou o medo, era agora sereno… ela mal se mexia, uma respiração pausada enquanto dormia, ele observava os contornos do seu peito a mexerem ao ritmo da respiração… amava-a em silêncio fazia tempo, contudo nunca tinha imaginado sequer estar no quarto dela, muito menos nesta situação… após a salvação da morte por duas moscas.

O dia começou a despertar, a lua há muito que tinha adormecido, e agora vinha aí o sol, ao longe ouvia-se um galo a cantar, bem mais perto o som do trânsito, as pessoas na sua rotina diária…

“Dariam pela falta dela se não a tivesse salvo?” os raios solares começaram a trespassar pela janela, um som chamou a atenção do anjo da noite, sentiu algo mexer-se, Amy… o pesadelo voltara, ia para se levantar, mas parou… não era o mesmo gemido da noite, viu-a levantar-se, ou antes, tentar…

Um sorriso percorreu-lhe o rosto, iluminada pela luz solar, era ainda mais bela, mais pura… ouviu-lhe o suspiro, viu-a olhar para si, olhos doces, mas não assustada… viu que ela não se assustou com a sua presença!

— Não, ainda estás fraca, deixa-te ficar mais um pouco, dorme… ficarei aqui. — ela adormeceu novamente.

Acordou então a segunda vez, olhou em volta de novo, estaria ainda ali o anjo? Encontrou-o, no seu local junto à janela a observá-la, com ar meigo e ternurento… amou a expressão dele… recordações faiscantes da noite vieram ao encontro da sua mente… como num choque térmico… manhã noite, calor frio, amor ódio, sentiu-se quase a desfalecer, levantou-se rapidamente para que tal não acontecesse.

Sentiu uma enorme dor na perna esquerda, e lembrou-se da faca do senhor-teia-de-aranha, passou pelo anjo.

— Preciso de um banho!

Ele nada disse, acenou apenas afirmativamente com a cabeça, ela não o conseguiu encarar diretamente nos olhos, sentia-se suja, sentia a saliva do senhor-teia-de-aranha nas suas pernas, sentia o hálito fétido do outro na pele, sentia-se podre.

Passou pelo anjo como se de vento se tratasse, caminhou em passo firme para a casa de banho onde se livrou do pijama, ligou a água quente para encher a banheira, olhou o rosto no espelho, o corpo.

Um carro passou no exato instante em que ela esmurrou a sua própria figura no espelho… a esmagou-a, estilhaçou-a.

A água continuou a correr, o anjo tinha-se levantado da sua poltrona, do seu trono e divagava agora de um lado para o outro, não tinha ouvido o espelho a quebrar-se, o carro impediu-o de tal.

Amy entrou na banheira, água bem quente, e começou a esfregar o seu corpo, a arranhá-lo, sentia nojo dela mesma, sentia nojo da sua pele ter sido tocada por vermes… quanto mais friccionava, quanto mais rasgava, mais repugnância sentia, até que parou.

— Não posso continuar a fazer isto! — olhou para o lado, um resto do espelho… a sua figura quebrada, tal como ela mesma se sentia… pegou-lhe, lacerando nesse ato um dos dedos.

Agarrou com uma maior robustez, sentiu o vidro a rasgar-lhe a pele na palma da mão, não se importava, nada mais interessava… sentia repulsa por ela própria, vergonha… ficou apenas a olhar o sangue a escorrer da mão para a água da banheira, água essa que já escorria pelos bordos da mesma inundando o chão da casa de banho… nojo… ódio… “pequena mosca corre corre pequena mosca” ouvia ela a voz rouca e dilacerante do senhor-teia-de aranha, o riso frio, gélido de Pedro…

Ódio, começou a sentir um ódio descomedido, incomensurável vergonha e um asco ainda maior… a água entrou nesse instante no quarto, na cozinha… a água da banheira… O anjo viu essa água, franziu o sobrolho.

Correu para a casa de banho, abriu a porta de rompante, viu Amy, a sua fada deitada na banheira, numa das mãos segurava um pedaço de vidro, um pedaço da sua vida estilhaçada, observou-a a encostar o vidro cortante a um dos pulsos, e assistiu ao sangue que começou a jorrar.

— Não, anjo, não, não vês o suja que estou, vai… parte, és o anjo da noite, não do dia… vai.

Contudo, ele não partiu, agarrou-lhe a mão que segurava o vidro assassino…

— Não Amy, não o faças.

— Estou nua, não olhes para mim, não olhes para meu corpo… estou podre, cheiro mal!

— Para… larga o vidro Amy.

— Larga-me, larga-me.

Mas não a largou, sentiu as unhas da mão livre de Amy cravarem-se no seu rosto, a segunda vez em menos de vinte e quatro horas, não ligou, obrigou-a a largar o vidro, puxou-a para si, olhando nos seus olhos:

— Não Amy, não podes, não permitirei que o faças.

Ela fechou os olhos, como que numa recusa às palavras, com vergonha de ele olhar para lá e abraçou-o o vidro caiu então pelo chão, estilhaçou-se em pequenos fragmentos.

Ele levantou-a da banheira, quase inerte… uma vez mais em menos de vinte e quatro horas…

— Estou suja anjo… estou suja. — sussurrava ela, mas já não se debatia.

— Não estás, garanto-te que não estás, eu protejo-te. — tapou-a com uma toalha, e levou-a de novo para o quarto, onde a deitou na cama.

Olhou em volta, precisava de um telefone. o pulso dela preocupava-o, além que sabia que ela necessitava de ser vista por especialistas.

Ele possuía alguns conhecimentos de primeiros socorros, mas achava-os poucos, ela poderia estar mais magoada que fisicamente aparentava, e depois existia ainda a tentativa de suicido com um pedaço de vidro, e se ela tentasse de novo e ele chegasse um minuto mais tarde?

Não encontrou nenhum no quarto, saiu para a sala, lá deveria existir um.

Na cama, Amy estava deitada, com uma única toalha a esconder a nudez do corpo, de olhos fechados e algumas lágrimas a percorrerem-lhe o rosto.

Existiam palavras na sua mente, “corre corre pequena mosca…” — o jardim, as árvores, todas estas imagens e palavras vinham como que numa avalanche de pensamentos, mas ela não se mexia, apenas estava ali, deitada, não tinha mais forças, ficava simplesmente a ver e ouvir com a memória…

Passos, passos a aproximaram-se.

— Não, vai embora, vai embora!

Os passos aproximaram-se até bem perto da cama.

— Sou eu Amy, o teu anjo noturno, sou eu, não parto, não partirei!

Abraçou-a, ajudou-a a vestir-se… tantas vezes que a tinha observado protegido pela escuridão no seu canto do bar, contudo jamais tinha imaginado estar com ela naquela situação “Como pode Deus permitir que façam uma coisa destas?”.

Vestiu-lhe calças, sempre a tinha visto com calças vestidas, e uma camisola de lã branca, “engraçado, foi com esta roupa que a vi entrar no bar a primeira vez”. deixou-a repousar no seu colo, acariciando-lhe a face e cabelos enquanto esperava.

Cinco minutos após, a campainha da porta arrancou-o do mundo de pensamentos onde se encontrava… Amy gritou… ele beijou-lhe a testa.

— Não tenhas medo, quem vem é ajuda.

Levantou-se da borda da cama onde estava sentado e foi abrir a porta, deixando entrar a enfermeira, ele tinha feito questão durante o telefonema para que fosse enfermeira, para não vir ninguém do sexo masculino, tinha medo da reação de Amy ao ver outro homem assim tão subitamente, entrar na sua casa e a levar.

O anjo noturno ajudou Amy a levantar-se, a doce Amy de pele clara, deixou-a apoiar-se nele e na enfermeira, e caminharam escadas abaixo em direção à ambulância.

O sol aquecia timidamente a manhã, Amy parou ao senti-lo tocar-lhe o rosto, estagnou apenas um segundo, para depois continuar a deixar-se guiar por ambos.

Um vento gelado percorria a rua, os becos… a cidade das aranhas e moscas.

Entrou na ambulância, sempre com o anjo noturno a apoia-la, sentaram-se; ele segurou-lhe a mão enquanto a ambulância percorria as estradas, desertas de noite, movimentadas de dia… em direção ao hospital local.

A viagem pareceu eterna, cada segundo era um milénio, desespero na mente do anjo, medo na mente de Amy… “… para a teia que a aranha preparou para ti”.

Uma travagem, a ambulância a parar… portas de trás são abertas.

Amy sai, apoiada pela enfermeira, o anjo da noite sai atrás dela, olha calmamente para o céu, sol e frio, permite que a aragem o desperte, o envolva, deixa-a passar por ele, sempre adorou o ar da manhã, o arrepio leve que o vento matinal provocava na sua pele.

Apoiou então Amy pelo braço, e juntos entraram no hospital.

Foram conduzidos até uma sala onde uma médica esperava.

No ar pairava um odor a éter, a sala era acolhedora, uma maca a um canto, uma jarra de flores sobre uma mesa no outro, e três cadeiras confortáveis.

A médica, pessoa de meia-idade, vestida de branco, apontou uma das cadeiras para que Amy se sentasse, conduzida para lá pela enfermeira e pelo anjo.

Em seguida, a médica chamou-o de parte, uma pequena conversa longe dos ouvidos de Amy, quase sussurrada, a médica voltou e ele saiu em direção a uma outra sala.

Nos corredores o odor a éter era demasiado violento, quase que causando náuseas, ele caminhou, virou à direita no corredor e entrou na primeira sala do lado esquerdo, lá, dois policias aguardavam-no, um, um homem e o outro uma mulher, a porta fechou-se quando ele entrou.

Na sala da médica, Amy era cuidadosamente observada, as feridas e golpes examinados, os arranhões que ela própria causou na banheira cuidados, e o golpe no pulso tratado.

Depois foi a vez da observação clínica, afinal Amy tinha sido vítima de tentativa de violação, teria que ser observada.

Ela deixava-se levar, não resistia a nada, não falava, nem respondia às perguntas que a médica ia colocando, apática, alheia a tudo, com o olhar fixo nas rosas-brancas ao fundo da sala… vislumbrando os raios solares entrarem e dando a elas um tom místico, como se as rosas estivessem num conto de fadas talvez!


Continua...

 

Alessandra Valle conta um pouco sobre o universo das pessoas desaparecidas e a rotina do departamento em que trabalha. Diretamente de Portugal, Carlos Palmito nos brinda com o segundo capítulo de um conto escrito em 2005 e foi re-escrito agora, especialmente para o nosso blog. Eu, Luiz Primati, trago um conto de 2018, publicado inicialmente no Facebook em partes e depois entrou para o livro: "Velhas Histórias Urbanas" que foi baseado num fato. Hoje trago a parte final do conto. Descubra quem era o fantasma que assaltava a geladeira. E por último, Sidnei Capella apresenta um novo conto sobre espiritualidade.

 

CONTOS DE UM FUTURO DISTANTE Nº 4 — 08/03/2022 

  

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