A fuga do lagarto - 2 em um

A noite está quente, agosto mostra-se impiedoso, passei o dia todo escondido do calor numa tubagem, aqui está fresco e vou sendo salpicado de quando a quando por gotas de água, adoro este local, mas tenho que sair, necessito de comida.
Cautelosamente deixo o negrume do tubo e sou imediatamente iluminado pelo prateado do luar. Dou uma corrida até perto da primeira árvore, começo a subir quando vejo uma sombra a pairar… é a coruja, ultimamente ela não larga este local, quase me esquecia, e esse oblívio poderia ter-se tornado fatal.
Salto de imediato para o chão, conseguindo ainda ouvir o bater das suas asas.
Corro desesperadamente, sendo acompanhado pela penumbra, agoiro de morte… é uma perseguição implacável. Sempre que vejo a treva aproximar-se, faço um ziguezague, escondo-me na escuridão e espero, estivemos neste jogo da apanha por quase uma hora, até que algo lhe despertou a atenção… um pequeno roedor, e a coruja parte para ele, desprezando a minha existência debaixo destas silvas. Sinto o odor de amoras, o bálsamo do seu suco, escolho a mais próxima, e com um ágil lançar de língua puxo-a para a minha boca… sou inundado de imediato pelo doce sabor do seu açúcar.

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Estou estoirado, esbaforido, doem-me os músculos, mas não posso parar, o falcão não me larga, e sempre que me escondo debaixo de uma pedra ele fica a planar lá no alto, pacientemente à espera.
Não posso ficar eternamente sob o calhau, está quente, é um verão como não faz tempo, tórrido, demasiado abrasante, daquela temperatura onde conseguimos cheirar apenas a terra seca, e ouvir cigarras a cantar nas imediações.
Sei que a tubagem de rega está perto, mais duas, máximo de três corridas e estou em segurança.
Se valeu a pena sair? Valeu sim, ainda sinto na boca o sabor daqueles deliciosos mosquitos, e trago uma baga roxa… vai ser a minha alimentação enquanto descanso na tubagem, só preciso de lá chegar.
Olho atentamente para fora da proteção, não vejo a sombra do pássaro, saio numa corrida. Nem três segundos passaram e já ela está sobre mim, mando um zigue para a direita, dois zagues para a esquerda, nunca mantendo um padrão… o tubo está a três metros, salto e entro no exato momento que o falcão desceu na minha direção, quase conseguiu, mas de quases está o inferno cheio.
Finalmente consigo descansar.
Doem-me os músculos, mas estou feliz.

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